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A DIFÍCIL ARTE DE VIVER A DOIS
Marta Echenique

A busca da felicidade por meio da vida amorosa ocupa um espaço central na vida das pessoas. Contudo, viver bem a dois é um grande desafio e um ideal bastante difícil de alcançar. No cotidiano dos consultórios de psicoterapia nos deparamos com sujeitos em conflito, os quais, diante do que consideram o fracasso da relação amorosa, examinam os próprios comportamentos e os do parceiro, procurando definir e imputar culpas e responsabilidades, em verdadeiros duelos verbais. A frustração pelas expectativas não concretizadas provoca reações diversas: raiva, culpa, insegurança, baixa autoestima, impotência, perplexidade… Ambos sofrem e não sabem o que fazer, pois não reconhecem o que está acontecendo com o seu amor, agora mergulhado em ressentimentos e mágoas.

Para aprofundar o entendimento dos insucessos dos casamentos, que iniciam com tantos projetos de felicidade, temos que ampliar o foco, deixando de pensar em bons ou maus desempenhos de responsabilidade individual, numa visão de “mocinho e bandido”. Devemos incluir na análise alguns processos macrossociais complementares às escolhas e condutas individuais: as diferenças na estruturação da identidade de gênero, como elementos geradores de tensões e conflitos; e as transformações das instituições sociais e, consequentemente, do casamento, como fonte de contradições e rupturas na contemporaneidade.

A nota mais marcante do conjunto da obra de Moreno é a teoria da espontaneidade-criatividade. Entretanto, algumas vezes nos esquecemos do "aqui e agora", da "sponte", do "devir", da genialidade potencial e ficamos fixados nas causas e nos "porquês" dos comportamentos atuais perturbadores ou indesejáveis. Buscando a "peça do relógio que não está funcionando bem", ou "o parafuso que precisa ser apertado", focalizamos o passado, em prejuízo do presente e de sua projeção no futuro. Esquecemos o homem criador, ao pensar que podemos entendê-lo segundo o modelo mecanicista. No entanto, somos muito mais do que a soma de percepções, atos, registros, relações, memórias, estados internos, etc... Somos seres capazes de amar, de imaginar, de criar e de evoluir.

Começaremos por esse último ponto:

As mudanças sociais que estamos presenciando, com a fragmentação das relações familiares, são características da Pós-modernidade e, para entendê-la um pouco, precisamos antes pensar sobre a Modernidade, fase que a precedeu.

A Modernidade foi um período influenciado pelo Iluminismo, em que o pensamento científico era muito valorizado. Uma de suas principais características era a busca racional do entendimento do universo, da natureza e do próprio homem, com a construção de uma ciência objetiva, pela qual tudo se poderia explicar. Pelo desenvolvimento da razão e da ciência e pelo controle das forças da natureza, os males do mundo poderiam ser resolvidos, as trevas, iluminadas, as desgraças, eliminadas e atingiríamos o progresso ilimitado, a justiça e a felicidade. Neste mundo regido pela ciência, enfatizava-se o controle e a ordem social e valorizava-se a homogeneidade: os “diferentes” não eram bem aceitos, atitudes que saíam dos padrões esperados eram rechaçadas e as escolhas individuais deveriam submeter-se aos preceitos sociais. O lema de nossa bandeira nacional – Ordem e Progresso – é um bom exemplo dessa filosofia positivista.

A Modernidade enfatizava a família nuclear em detrimento das grandes famílias de períodos anteriores e construía discursos normativos sobre os papéis de gênero e sexuais na família e na sociedade, definindo desempenhos “corretos” a partir de uma visão científica da “natureza” de homens e mulheres.

Nesse paradigma, o homem era chefe da família e cabeça do casal, e a mulher se definia pelo exercício dos papéis de mãe e esposa, determinantes na manutenção da estabilidade do casamento e da família.

Mas, a Modernidade trouxe uma contradição em sua essência: de um lado estavam o pensamento científico, os valores relacionados a princípios explicativos e a normas racionalmente desenvolvidas para dar estabilidade à organização social; de outro, o ideal de evolução constante, que dava lugar à ruptura com a tradição, legitimava o questionamento de tudo e promovia a emergência do sujeito, soberano, autônomo e contestador.

Também a devastação e o sofrimento provocados pelas duas grandes guerras do século passado revelaram a falência do mundo idealizado – o progresso científico não era mais garantia de felicidade e fartura, e suas promessas já não ofereciam uma resposta salvadora às dores da humanidade. Certezas deram lugar a dúvidas. Tradição e estabilidade perderam valor, enquanto a subjetividade individual, ao contrário, se tornou cada vez mais valorizada.

Esse é o ponto de partida da Pós-modernidade.

Mudanças extremamente rápidas, fragmentação social, estruturas instáveis, movimentos individuais e grupais – marcados pela contingência e pela heterogeneidade – provocam a emergência de novos padrões relacionais.

A crise da Modernidade estendeu seus questionamentos ao contexto familiar, relativizando normas e expectativas de comportamento e desencadeando a ruptura das estruturas tradicionais pela busca de horizontalidade entre os membros da família e de maior igualdade entre homens e mulheres. Os projetos de vida deixaram de ser construídos de acordo com modelos relacionais predeterminados, e são cada vez mais baseados na liberdade de escolha, reavaliada a todo momento. A possibilidade de escolher livremente permite às pessoas sentirem-se mais potentes, expressando suas opiniões e querendo realizar sem medo os seus desejos. Com isso, tanto a família como o casamento ficam mais vulneráveis e instáveis.

O mundo atual é regido pela valorização da autonomia, da liberdade individual e da satisfação pessoal. A identidade do sujeito contemporâneo se alicerça no individualismo, no viver para si próprio, na ética do prazer. A lógica das relações de consumo é transposta para os relacionamentos: se estes não forem fonte de prazer, são sentidos como prisão e, portanto, devem ser descartados. O casamento, que agora se baseia exclusivamente no amor e na satisfação recíproca, pode ser rompido se o amor deixar de existir.

De acordo com Chaves (2004, p.13), é possível vislumbrar três consequências deste quadro nas relações sociais e amorosas: 1. a desregulamentação, a flexibilização e a flutuação de regras e normas, que passam a ser orientadas em função do mercado; 2. a responsabilização imposta sobre o indivíduo pelo próprio bem-estar, assim como a ênfase dada à realização e à supremacia dos interesses individuais; e 3. a facilitação da construção de relações humanas essencialmente utilitaristas, nas quais o outro é colocado no lugar de instrumento ou meio de acesso à autossatisfação.

As modificações dos papéis de gênero abrem espaço à emergência de experiências variadas de estruturação familiar, com menos julgamentos e maior aceitação das diferenças.

O casamento moderno, normatizado, monogâmico e indissolúvel, dá lugar às relações pós-modernas, contingentes, instáveis e potencialmente solúveis.

Na coexistência desses dois paradigmas, o amor contemporâneo é contraditório e as relações conjugais se caracterizam pela ambiguidade. A fluidez das referências e a ausência de normas, ou a liberdade de não seguí-las, bem como as constantes mudanças no âmbito social e profissional, fazem com que os indivíduos busquem a estabilidade de relações duradouras, que proporcionem segurança. Sonhos românticos de amor eterno convivem com a competitividade e o individualismo exacerbados.

Os ideais amorosos envolvem o desejo de estabelecer vínculos permanentes, enquanto o medo de assumir compromissos e a possibilidade de perder autonomia e liberdade boicotam a sua realização.

O desejo de se unir a alguém muito especial, de desfrutar de afeto significativo, companheirismo e trocas relevantes, de ter uma vida sexual rica e excitante, bem como uma atividade profissional estimulante e realizadora, torna o sujeito contemporâneo extremamente exigente consigo mesmo e com o cônjuge. Essa idealização do amor e a busca da perfeição individual e relacional geram expectativas difíceis de serem atingidas, levando à intolerância e sobrecarregando a relação com frustrações que podem levar à separação, ou, no melhor dos casos, a uma insatisfação latente que perpassa o cotidiano do casal.

A possibilidade de ruptura a qualquer momento dificulta a construção de um projeto de vida em comum e impõe certa superficialidade e transitoriedade à relação que impedem o “mergulho de cabeça”. O que poderia ser considerado fluidez e flexibilidade transforma-se em instabilidade e ansiedade. A insegurança e os laços tênues reforçam a necessidade de estar constantemente avaliando e tentando melhorar a relação. Não se pode mais relaxar...

Por outro lado, observa-se um significativo alargamento do espaço feminino, tanto na família como no mundo do trabalho, e os papéis masculino e feminino são flexibilizados e ampliados; agora os homens fazem parte da criação dos filhos e as mulheres contribuem para a renda familiar.

As diferenças bem definidas e reforçadas por claras expectativas de comportamentos típicos de cada gênero dão espaço para interpretações subjetivas e muito variadas dos papéis de homem e mulher, que se contrapõem não só aos estereótipos dos modelos sociais anteriores, como também aos registros de experiências individuais registradas precocemente.

Desde a mais tenra idade, os estímulos oferecidos pela Matriz de Identidade a cada gênero são muito diferentes: expectativas, atitudes e comportamentos, tanto conscientes como inconscientes, influenciam a definição de condutas adequadas a meninos e meninas.

A identidade se constrói na relação. A consciência do “eu” desabrocha nas trocas com o outro, no exercício de papéis e contrapapéis. Esta construção envolve aproximação e distanciamento em relação ao outro, ou seja, segue um movimento pendular organizador e estruturante entre fusão (indiferenciação) e individuação. Nos momentos iniciais, a formação da identidade da criança tem o seu maior peso na fusão; na vida adulta, predomina a individuação.

A intensa troca afetiva inicial com a mãe estabelece uma relação fusional, com características diferentes para meninos ou meninas – a começar pelo diálogo tônico, que se dá de forma bastante diferenciada. Na relação que a mãe estabelece com o filho, experimentando-o como seu oposto; o tônus muscular, mais tenso, reflete os mecanismos socioculturais de interdição ao incesto, e seu afeto é mais contido. O tônus da mãe em relação à filha é mais relaxado e estimula o prolongamento da simbiose.

O vínculo do menino com a mãe promove nele o conhecimento da diferença, sendo a separação essencial para o seu bom desenvolvimento. Quando adulto, valoriza a própria autonomia, chegando mesmo a desenvolver uma postura fóbica em relação a envolvimento e entrega, considerando o desejo de proximidade da mulher como cobrança e tentativa de controle. Já a mulher adulta permitirá facilmente a fusão, desejando intimidade e conexão profunda. Sua dificuldade aparece na individuação, pois poderá apresentar dificuldades na construção da autonomia.

Ambos repetem os padrões iniciais de registro afetivo, que desencadeiam ansiedades e fantasias ameaçadoras, sendo o outro ao mesmo tempo objeto de desejo e ameaça de sufoco ou de rejeição e abandono. As propostas conscientes de estabelecer uma relação madura de troca e encontro se perdem nas contradições dos desejos e temores inconscientes, uma vez que os resultados não dependem apenas dos fatos objetivos e da vontade consciente, mas, sobretudo, de estereótipos introjetados e das fantasias criadas em torno dos relacionamentos e das intenções do outro.

O homem, para defender-se da regressão e do medo de diluir sua identidade, tende a encaminhar o desejo fusional para a posse sexual, na qual se sente mais seguro. Mesmo na busca do erótico, mantém uma atitude de oposição à indiscriminação. A mulher, ainda que nem sempre tenha consciência disso, busca a fusão amorosa. Por isso, para ela, um abraço apertado e amoroso muitas vezes vale mais do que uma relação sexual propriamente dita, a qual terá pouco valor se faltar carinho e intimidade.

Vários casais em crise trazem queixas sexuais que são daí decorrentes. Mesmo os mais jovens, que se consideram liberados, têm dificuldades nessa área. Elas reclamam do “sexo pelo sexo”, automático e sem preliminares, e eles se queixam da falta de desejo delas, ou, como costumam dizer, da sua “frieza”. Eles acham que têm sexo de menos, elas acham que têm demais.

As dificuldades dos casais contemporâneos refletem essas questões relacionadas à construção da identidade de gênero, e também apontam para os desafios das fases de transição de referências socioculturais, caracterizadas pela coexistência de dois modelos.

É como se as pessoas vivessem com um pé no modelo de casamento moderno, baseado em estabilidade e na clara divisão de papéis de gênero, e outro pé no casamento pós-moderno, em que a construção dos parâmetros da relação depende apenas do casal, num processo aberto à experimentação contínua.

A tomada de consciência das contradições é fundamental para a correspondente elaboração e integração das partes em conflito. A origem do sofrimento do casal pode ser a dissociação entre teoria e prática, ou seja, entre o discurso baseado nos valores pós-modernos de autonomia, liberdade de escolha, igualdade e reciprocidade, e a forma como vive o seu dia a dia. Ou, ao contrário, a prática é coerente com o discurso, mas emocionalmente os cônjuges não dão conta de suas experiências.

Tal é o caso de um casal que se propunha viver um casamento aberto, sem possessividade e sem cobranças, mas desenvolveram problemas no relacionamento – ela, um apego ansioso e controlador e constantes cefaleias, e ele, cenas de intenso ciúme totalmente incoerentes com a proposta acordada.

Acontece também de o casal ter um pensamento pós-moderno, mas relacionar-se segundo os modelos que cada um aprendeu em sua família de origem. Pode haver, tanto na família como nos casais, um conflito entre o tradicional modelo hierárquico de dominação patriarcal e o desejo consciente de viver segundo padrões igualitários de relacionamento e de tomada de decisões.

A ampliação dos papéis de gênero, ao mesmo tempo em que abre muitas possibilidades, também é fonte de estresse, pois desorganiza as referências conhecidas e contribui para o aparecimento de tensões. As novas respostas representam um grande desafio a ser enfrentado diariamente.

Lembro-me do caso de um jovem par de namorados que morava junto há quase seis anos. Como se amavam e se davam muito bem, resolveram casar e ter um filho. Pouco tempo depois fui procurada pelo casal, pois, após o casamento, eles haviam começado a brigar muito, de uma maneira que não conseguiam compreender. Pedi um exemplo das brigas e eles contaram a última, relatando que ela reclamara que ele não levava o lixo para fora e ele, que ela não gostava de cozinhar. O conflito foi crescendo e naquela noite haviam dormido sem se falar… Investigamos, então, como era a divisão de tarefas antes de se casarem e eles ficaram muito surpresos ao se darem conta de que ambos, indistintamente, se ocupavam do lixo e que, em geral, era ele quem cozinhava. Acabaram concluindo que, com a formalização da relação, eles haviam mudado a expectativa de suas condutas, passando a esperar um do outro comportamentos de pessoas casadas, segundo modelos de relações tradicionais. Um belo exemplo das contradições pós-modernas – conscientemente, se propunham a ter uma relação de horizontalidade e igualdade na singularidade, mas seus comportamentos estavam presos a estereótipos aprendidos com seus pais ou avós de como deveriam ser os papéis de homem e mulher casados.

A abordagem terapêutica de casais contemporâneos inclui ajuda para superar a lógica da dualidade e da certeza, abrindo o espaço para a dúvida e o questionamento dos modelos culturais e desenvolvendo pautas relacionais mais espontâneas e criativas, tendo presente a ideia do amor como construção contínua.

Como ponto de partida, depois de ouvir as demandas que os trouxeram à terapia e de fazer o mapeamento da crise, busco resgatar a conexão inicial, que provocou o enamoramento. Proponho que o casal se aproxime bastante e, frente a frente, se olhem como fizeram quando se apaixonaram. Depois, em silêncio, que toquem um no rosto do outro, lentamente. Finalmente, que se falem como falavam quando se apaixonaram. A seguir, peço que digam por que se sentiram atraídos um pelo outro, reforçando os aspectos confirmadores.

Com isso se estabelecem algumas âncoras positivas, que restauram o clima de boa vontade recíproca, a partir das quais eles podem comunicar com mais clareza os seus sentimentos e buscar a solução das desavenças, sem ferir um ao outro. De fato, em vez de brigarem, eles passam a se tratar com mais respeito e, algumas vezes, até com carinho. Ao quebrar a competitividade e neutralizar as emoções negativas, no lugar de uma queda de braço ou da busca por culpados, alinham-se as forças em direção a um objetivo comum e se estabelece um novo patamar para resolver os problemas. A comunicação torna-se mais construtiva, e eles saem da posição de adversários para a de aliados em busca de soluções.

Uma investigação sobre o significado do casamento para cada um dos cônjuges pode desvelar contradições entre as proposições objetivas e racionais e as expectativas emocionais. Todos sabem que querem ser felizes, mas poucos sabem exatamente o que os faria felizes. Amor? Apoio e segurança? Comunicação honesta? Confiança? Sexo maravilhoso? Compromisso que dure para sempre? Uma união breve, com emoções intensas? A maioria das pessoas não tem certeza sobre as suas prioridades, muito menos sobre as dos seus cônjuges. Mas, como satisfazer as necessidades de alguém se não se sabemos quais são elas? É importante esclarecer as hierarquias de valores para trabalhar os conflitos, pois alguns valores, quando negligenciados, podem provocar o fim de uma relação.

Em vez de brigar com o marido porque ele gasta demasiado tempo com o trabalho e os negócios, por que não tentar entender sua hierarquia de valores e descobrir o quanto ele se preocupa com a segurança da família e como isso é, para ele, uma demonstração de grande amor e carinho? Ao compreender as motivações de alguns comportamentos que dão origem a conflitos, pode-se promover sua ressignificação, reestruturando os padrões relacionais.

Além disso, olhar para a história de vida de cada cônjuge facilita a compreensão recíproca, na medida em que os ajuda a entender como desenvolveram suas maneiras peculiares de lidar com as circunstâncias da vida.

Outro bom caminho costuma ser buscar os modelos relacionais das famílias de origem, trazendo para a consciência do casal os padrões de funcionamento dos respectivos pais, assumidos automaticamente por eles, separando o que é irrelevante do que é verdadeiramente importante e criando a oportunidade de juntos escolherem como querem construir a sua convivência.

Nas questões relacionadas à individuação e à fusão, há que se desenvolver a percepção de que valorizar demasiadamente a individualidade pode significar o enfraquecimento da relação, e enfatizar a fusão pode anular justamente as diferenças que provocaram a atração recíproca.

A harmonização das relações amorosas passa pela coexistência das diferenças e pela aceitação da inevitabilidade do conflito entre os desejos de fusão e de individuação, promovendo um espaço conjugal que possa preservar, ao mesmo tempo, os elos relacionais e a autonomia.

Para facilitar a percepção dos sentimentos e sofrimentos mútuos, pode-se usar a inversão de papéis, seguindo a metodologia psicodramática, com excelentes resultados.

Entre ansiedades e tensões, cobranças e pressões, também é uma boa estratégia investigar as relações de poder, clarificando como estão definidos os territórios de ação e as áreas de influência de cada um, com as respectivas atribuições de tarefas e funções no cotidiano do casal.

O trabalho terapêutico envolve revisão das incongruências, relativização das certezas, ressignificação de condutas e aceitação das diferenças, de modo a reforçar a segurança da identidade de cada um, para que possam melhor se perceberem, sem terem de se defender um do outro como de um oponente ou perseguidor.

A proposta terapêutica não se compromete com a manutenção ou com a ruptura do vínculo, mas com o desenvolvimento de novas possibilidades relacionais, que contemplem a promoção da saúde emocional das partes envolvidas e a possibilidade de serem felizes a partir da construção dos próprios mapas amorosos.

Considero que estes mapas devem envolver a construção de um projeto de vida em comum, uma relação afetiva de apoio e aceitação – que alicerce a vontade de viver juntos –, ajuste sexual satisfatório e capacidade de adaptação recíproca.

Esta construção pode ser muito facilitada pelo psicodrama, tanto por sua filosofia, que considera o homem como construtor de seu destino, quanto pela riqueza e potência de suas estratégias de ação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. CHAVES, J. C. Contextuais e pragmáticos: os relacionamentos amorosos na pós-modernidade. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004.
  2. ECHENIQUE, M.; FASSA, B. Poder e amor: a micropolítica das relações. São Paulo: Aleph, 1992.
  3. MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1975.
  4. RILKE, R. M. Cartas a um jovem poeta. Rio de Janeiro: Globo, 1989.

Este artigo é um capítulo do livro PSICODRAMA COM CASAIS, Editora Ágora, 2016, organização de Gisela Castanho.

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REFLEXÕES SOBRE O AMOR E AS RELAÇÕES AMOROSAS
Marta Echenique

“Amar também é bom, porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.”
( Ranier Maria Rilke)

Para discutir relação amorosa temos que pensar o amor. Para pensar o amor, vamos refletir sobre suas origens e sobre os encontros e desencontros entre homem e mulher.

Meu pensamento se alicerça no Psicodrama de Jacob Levy Moreno. De suas variadas vertentes teóricas, que incluem a Socionomia, a Teoria da Espontaneidade-Criatividade, a Teoria dos Papéis e a Teoria da Matriz de Identidade, o aspecto que quero ressaltar passa pela Matriz de Identidade, especificamente como formadora da identidade de gênero.

Penso que os desafios e as dificuldades pelas quais podem passar as relações amorosas estão muito relacionadas com a estruturação da identidade de gênero. O amor, expressão maior da complementaridade entre o homem e a mulher, surgiu como conseqüência da bipedia e da solidariedade. Em tempos remotos, cada um provia as suas necessidades, independentemente, ainda que vivessem em bandos. As modificações climáticas e ambientais que obrigaram a maior engenho na obtenção de alimentos e de segurança, estimularam a cooperação entre os indivíduos e o crescente uso dos membros superiores nessas tarefas, o que provocou o surgimento da bipedia.

O advento desta é o ponto de ruptura entre os primatas e o homem. A postura ereta realimenta o uso dos membros superiores, com a criação de novas oportunidades em aplicações cada vez mais variadas e, ao mesmo tempo, amplia o campo de visão, oportunizando uma noção de distância e perspectiva que facilita a construção e a representação de objeto, libertando o homem da necessidade de concretude e da presença do mesmo - ampliando-se o horizonte, amplia-se a mente, aumenta o volume do cérebro e se desenvolve o lobo frontal, responsável pela abstração e pelos afetos, fazendo com que surjam padrões novos e muito significativos de relações interpessoais.

Paralelamente a modificação estrutural do esqueleto, visando maior eficiência no andar, alterou consideravelmente a conformação dos membros inferiores e da bacia, a qual torna-se mais estreita, impossibilitando o nascimento de crias com cabeças grandes. A solução da seleção natural foi o parto prematuro de filhos com cabeças menores, que passavam mais facilmente pelo orifício genital, mas que exigiam muito maior tempo de cuidados suplementares. O nascimento de um bebê caracterizado pela imaturidade e pela fragilidade tem conseqüências hominizantes, pois este bebê exige, para sobreviver, uma mãe humana, capaz de cuidados extremosos e um pai provedor de alimentos, abrigo e defesa. Obrigada a segurar o filho imaturo em seus braços ou fixá-lo ao próprio corpo, com a atenção sempre voltada para sua sobrevivência, a fêmea torna-se menos capaz de prover a subsistência sua e da prole e começa a necessitar da proteção e ajuda dos machos. Para conservá-los perto de si e interessados em protegê-la, a seleção genética irá prestigiar as fêmeas que copulam a maior parte do ciclo mensal, as quais acabam por perder seus estros e se tornam permanentemente receptivas ao intercurso sexual. Essa receptividade e os atrativos e encantos desenvolvidos pelas fêmeas para prender o macho são importantes dados na estruturação de uma relação duradoura, de compromissos recíprocos, cujo fim principal é a sobrevivência dos filhos.

A receptividade sexual constante e a cópula frontal, face-a-face e olho-no-olho, também fruto da nova conformação anatômica típica da bipedia, permitem aos parceiros se acariciarem e envolverem em abraços: inaugura-se o amor.

Elemento fundamental da hominização, o amor nasce da proximidade e do prazer corporal e se define pela complementaridade e pela troca, que estabelecem laços de colaboração, visando à conservação e à evolução da espécie.

Homens e mulheres desenvolvem por diferentes caminhos a solidariedade e o altruísmo, o cimento da socialização humana.

A vulnerabilidade do recém-nascido humano, bem como o longo tempo que permanece sob seus cuidados, predispõem a mãe ao apego e ao desvelo, germes da abnegação e dedicação básicas que caracterizam o amor; os machos ligam-se inicialmente às fêmeas por seus atrativos sexuais e secundariamente estabelecem o cuidado e o altruísmo com elas e com a prole.

Ao escolher uma parceira, entre as fêmeas disponíveis, o homem escolherá aquela que apresentar o biótipo mais adequado a uma boa gestação, parição e lactação - quadris largos e fartos seios -, bem como os predicados compatíveis com as tarefas de cuidado e atenção com a prole - temperamento doce, meigo e carinhoso. As mulheres escolherão os machos que mais se aproximem do biótipo do defensor e provedor bem sucedido - homens grandes, fortes, peludos, que afastem ou assustem os inimigos, que facilmente consigam o alimento necessário à família e que ocupem um lugar de prestígio na hierarquia grupal.

No início, as diferenças circunstanciais e comportamentais eram diluídas nos momentos de convívio e a segurança física e constância emocional, proporcionadas pelo agrupamento social, permitiam manifestações afetivas sensuais e sexuais entre os diversos elementos do grupo, que eram aceitas com naturalidade, seja entre adultos, seja entre crianças. O prazer espontâneo dos primeiros tempos, no entanto, foi gradativamente restringido por normas da organização social e a regulamentação dos vínculos familiares, pela necessidade de segurança na transferência dos bens e cuidados de pais para filhos, legaliza o amor.

As relações de complementaridade foram progressivamente acentuadas e codificadas como elementos de estruturação da cultura e condição de adequação dos indivíduos à mesma.

A mulher, que permaneceu junto à prole e ao grupo familiar, foi menos exigida nas tarefas do mundo exterior, se conserva mais ligada aos aspectos afetivos e opta, existencialmente, pela busca de relações que integrem amor, sensualidade e sexo, nesta ordem de prioridade.

Pelas circunstâncias que a fizeram vulnerável e dependente da ajuda do homem, ela se coloca como um ser que espera encontrar nele e com ele a resolução de suas necessidades. Os padrões arcaicos dos relacionamentos primordiais da humanidade, subjacentes no inconsciente de ambos e reforçados pelos estereótipos culturais presentes na evolução de cada um, fazem com que a relação seja para ela mais visceral e importante do que para ele, que é auto-suficiente, não precisando dela para sobreviver.

A evolução ontogenética corre na mesma direção desta evolução filogenética do amor.

Vejamos como se constrói o indivíduo humano:
A identidade se constrói na relação, sendo o "eu" a resultante do exercício de papéis, a consciência de si que desabrocha no intercâmbio com o tu. Cada ser é o que é, em virtude dos papéis que vivencia com o outro. O conjunto de papéis e contrapapéis oferecidos à criança nesse processo de estruturação chama-se Matriz de Identidade. A construção da identidade envolve momentos de aproximação e de distanciamento que tem como pontos máximos: a fusão (indiferenciação ) e a individuação ("eu sou eu, sou o 'não-outro"').

Fusão e individuação são elementos organizadores, pólos de um mesmo processo pelo qual a identidade se estrutura mediante um movimento pendular. Os momentos de individuação contribuem para a delimitação do “não-eu” e, por conseqüência, do "eu". Os momentos de fusão marcarão para sempre o “como” da futura atuação do ser no mundo.

Ambas as posições são necessárias e igualmente estruturantes; no entanto, é impossível permanecer em fusão ou individuação puras. Nas diversas fases da vida, o ser oscila entre um e outro em diferentes ritmos e velocidades. Em algumas circunstâncias evolutivas ou afetivas, o indivíduo permanece mais tempo em determinado ponto, saindo dele em direção ao pólo oposto apenas eventual e rapidamente. Dessa maneira, o feto, assim como, logo após, o recém-nascido, permanece prolongadamente em fusão e o adulto, quase sempre em individuação.

Desde o início, os estímulos oferecidos pela Matriz de Identidade a cada gênero são muito diversos. É diferente a relação de uma mãe com seu filho ou sua filha ou a de um pai com cada um dos dois, assim como é diferente a relação de filho ou de filha com pai e mãe. Essas relações são responsáveis por adultos de uma mesma espécie que percebem e lidam com o mundo de maneira tão específica a cada gênero.

Desde o momento em que toma conhecimento do sexo do bebê, cada membro da família passa a desempenhar papéis em razão das expectativas de comportamento e dos estereótipos correspondentes, desencadeando condutas matrizadoras do indivíduo como pertencente a seu gênero.

Nesses momentos iniciais, a formação da identidade da criança, oscilando entre os pólos "fusão" e "individuação", tem o seu maior peso na fusão. A intensa troca afetiva com a mãe estabelece para ambos os sexos uma relação de intimidade com características de indiscriminação e simbiose, do tipo "eu sou ela, ela é eu". De acordo com essa identificação original, as condições de maternagem e as diferenças na qualidade dessa fusão marcarão os padrões que regem a feminilidade e a masculinidade.

São diferentes as características da fusão com meninos ou com meninas, a começar pelo diálogo tônico que se dá de forma específica com cada um. Na relação que a mãe estabelece com o filho, experimentando-o como seu oposto, ela se fascina e se encanta com a diferença, desencadeando em si fantasias de fusão com o sexo oposto. Ela proporciona ao menino uma fusão inicial com colorido erótico, o que desencadeia o surgimento dos mecanismos socioculturais de interdição ao incesto. A mãe se contém e o seu tônus, mais tenso, reflete a censura à expressão de seu afeto. O menino responde ao tratamento recebido; sentindo a tensão dela, ele começa a ser menino antes de saber que tem um pênis e antes de perceber as diferenças sexuais.

O tônus postural da mãe ao amamentar a filha é mais relaxado, a relação é caracterizada pela satisfação de se ver repetida, pela tranquilidade de lidar com o ser que é uma extensão de si mesma. Seus arrulhos de cumplicidade expressam a sexualidade difusa de ambas e estimulam a feminização. Identificando-se uma com a outra vivem uma fusão da qual não precisam fugir, uma vez que não há o fantasma do incesto. A sensação de englobamento e bem-estar dispensa a filha de qualquer esforço de individuação, o que leva ao prolongamento da simbiose.

A qualidade das vivências fusionais iniciais com a mãe, ou seja, fusão misturada com erotismo (meninos) ou fusão com identificação (meninas), é determinante na estruturação da personalidade e leva a diferentes resultados. No primeiro caso, é estimulada a individuação e, no segundo, a fusão, vivência do "ser-com-outro”, sendo este um dos pontos mais significativos para explicar as diferenças entre homens e mulheres.

O fato de a menina viver inicialmente a identificação, desfrutando dela com tranqüilidade e aceitação da mãe, faz que ela construa seus primeiros instrumentos identidade baseada na semelhança. Por meio da mãe, ela se identifica com o grupo feminino, desenvolvendo um sentimento de pertencer, uma identidade coletiva que permanece para sempre. Mais tarde, já adulta, a mulher permitirá facilmente a fusão de outros com ela, desejando intimidade e afiliação familiar. A mãe sente a sua filha como extensão de si mesma, projeção sua no tempo e tende a mantê-la menos separada, estimulando o prolongamento das vivências simbióticas.

Não só as duas protagonistas, mas também a própria cultura espera e estimula o, prolongamento da fusão. A menina não precisa se separar; ao contrário, sua separação precoce prejudica sua identificação com a pauta de desempenhos femininos. A permanência na fusão não afeta a sua identidade de gênero - espera-se que as mulheres sejam um pouco dependentes. Seu prejuízo se dá na individuação. A fusão exagerada dificultará seu domínio da realidade extrafamiliar e seu agir independente no mundo.

O vínculo de identificação do menino com a mãe, erotizado por esta, promove nele o conhecimento da diferença. A fusão é gratificante para ambos; todavia, a proximidade intensa e excitante contém o germe da ambivalência: ao mesmo em tempo que deseja perpetuar a fusão e prendê-lo junto a si, a mãe o empurra para longe, porque o ama e o quer bem masculino. A separação é essencial a ele, uma vez que a fusão, tentação de aconchego e intimidade, é perigosa para o bom desenvolvimento de seu "ser-homem".

O processo de individuação do menino é facilitado pelo afastamento. Ele já sabe que não é igual, que não faz parte do grupo feminino, mas ainda não conhece os homens. A identificação se dá pelo avesso, visto que a identificação propriamente dita começa mais tarde, quando o pai se torna presente. Por isso o desenvolvimento da identidade de gênero é mais difícil para os meninos. Porque o menino tem de renunciar muito cedo à fusão com a mãe, assim como pelo fato de esta vivência não conter plenamente o elemento de identificação, o homem experimenta vinculações mais flexíveis, com maior espaço para as diferenças. Todavia, a necessidade de escapar à fusão simbiótica com a mãe para preservar sua masculinidade desenvolve uma postura fóbica em relação a envolvimento e entrega, medo de intimidade, que se prolongará nos demais relacionamentos amorosos.

A construção da identidade inicia-se em ambos pelo gênero, com base nessas primeiras vivências afetivas. Enquanto ela desenvolve o sentimento de ser semelhante e parte, ele desenvolve o sentimento de ser "à parte", diferente, uno. A menina vive fusão-identificação e faz a relação amor = identificação; o menino vive fusão-eroticidade e faz a relação amor = eroticidade.

Esses primeiros esquemas continuarão funcionando nos adultos. Ao longo da existência, homens e mulheres repetem os padrões iniciais de sua memória afetiva, criando pautas de comportamento que são transpostas para todas as relações interpessoais, sobretudo as amorosas.

Os parceiros amorosos, com todas as suas possibilidades de troca emocional e intimidade corporal, reeditam as primitivas vivências, repetindo a relação primordial de cada um com a respectiva mãe, com seus componentes fusionais e de individuação. Assim como a mãe, o par é desencadeante de ansiedades e fantasias, ao mesmo tempo objeto desejado para a fusão (salvadora ou sufocante, conforme seja o caso) e ameaça de rejeição e abandono. É nessa relação que se observa a maior intensidade do conflito fusão-individuação.

Assim como há uma pressão social para a mulher permanecer presa ao pólo fusional, há uma pressão sobre o homem para que fique preso ao pólo da individuação. O homem busca sempre a diferenciação, quer se afirmar, separar-se, ser indivíduo. Para defender-se da regressão e do medo de ser anulado, tende a encaminhar o desejo fusional para a posse sexual, na qual se sente seguro; e mesmo na busca do erótico, mantém uma atitude de oposição à indiscriminação. A mulher quer se fundir ao amado, formar com ele uma mistura homogênea na qual não se distinguem limites individuais. Por isso, para ela, um abraço apertado e carinhoso muitas vezes vale mais do que a relação sexual propriamente dita e esta terá pouco valor se faltar intimidade e aconchego.

Ela quer uma relação absoluta e íntima, dispondo-se a dar o mesmo em troca, enquanto ele anseia pela liberdade em uma relação mais separada, com espaços e momentos definidos. É uma diferença de objetivos que deixa a mulher ansiosa e insegura, pois lhe parece que ele a ama menos do que seria necessário, e deixa o homem tenso, ao se sentir cobrado e pressionado. Quanto mais o inseguro e o exigente amor da mulher insiste, mais ele recua.

Tanto o homem como a mulher precisam de confirmação e reconhecimento, mas apresentam marcantes diferenças conseqüentes às suas primeiras experiências evolutivas. O homem, que se desenvolveu na oposição à figura feminina, quer da mulher amor, gozo sexual, cuidado carinhoso, permissão e aprovação às suas peculiaridades; a confirmação, ele espera de seus pares, os outros homens que, estes sim, avalizarão o seu valor pessoal.

A mulher espera tudo do homem, o amor, a proteção, a eroticidade e a confirmação social; é de sua aprovação e aceitação irrestrita que ela retirará a sua auto-estima. Quanto maior consciência a mulher tem de si, tanto mais inclui o reconhecimento pleno e a entrega total como essencial ao amor. Esse amor tão exigente certamente se deparará com a frustração, pois uma fusão completa tão identificatória não é mais possível e, sobretudo, não é desejada pelo homem, que, pelo contrário, a teme. Quanto mais ela insiste, mais ele recua, assustado, pois ele não que se fundir e não exige que a mulher seja igual a si, muito menos quer ser igual a ela; basta que ela o ame e o aceite como é, queira ser a "sua mulher", extensão de sua identidade e de seu prestígio, objeto de seu desejo e fonte de gratificação erótica.

A fantasia onipotente da mulher, de transformar o parceiro ao seu gosto, encontra base e reforço no acervo mítico da humanidade: inúmeros contos ou fábulas, como "A Bela e a Fera", e romances modernos açucarados, como "A Noviça Rebelde", mostram mulheres que, por suas qualidades, por seu amor e por seu empenho, modificam o amado - com um beijo mágico, transformam sapos em príncipes. Já o homem, nos contos correlatos, detém o poder de despertar a amada adormecida, de trazê-la à luz e à vida, mas apenas desperta as suas qualidades latentes, não a modifica. Portanto, também ele encontra aí a base e o reforço de suas pretensões, que não são de modificá-la, mas de ser senhor da sua vida. As propostas conscientes e bem-intencionadas de estabelecer uma relação amorosa madura de troca e encontro se perdem nas contradições dos desejos e temores inconscientes. Ao repetir a história vivida, surgem as fantasias ameaçadoras, em que um é perseguidor do outro e a relação se reveste de frustração, ressentimentos e mágoas. Ambos se frustram e não sabem o que fazer, pois também não reconhecem o que está acontecendo com o seu amor.

A maior harmonização das relações amorosas passa pela coexistência dessas forças opostas e pela aceitação da inevitabilidade do conflito entre o desejo de fusão e o desejo de individuação.

As mulheres precisam ser estimuladas e reforçadas em sua individuação para superar as dificuldades de discriminar-se e de amar não simbioticamente, valorizando um espaço relacional que possa preservar, ao mesmo tempo, os elos relacionais e a distância.

Os homens precisam resgatar o prazer da fusão, superando o medo da diluição para poder entregar-se à intimidade e ao amor.

Baseado nessa leitura, o trabalho terapêutico das relações amorosas, tanto na terapia de uma das partes, como na terapia de casal, envolve necessariamente um processo de rematrização, no qual se reforcem a segurança da própria identidade e a aceitação das diferenças anteriormente referidas para que possam melhor se perceber, sem terem de se defender um do outro como de um oponente.

  • FASSA, B.; ECHENIQUE, M. Poder e amor: a micropolítica das relações. São Paulo: Aleph, 1992.
  • MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1975.
  • RILKE, R. M. Cartas a um jovem poeta. Rio de Janeiro: Globo, 1989.
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CONTRIBUIÇÕES À VISÃO DE HOMEM DE MORENO
Marta Echenique

"O Mestre disse a um pintor: Qualquer pintor que queira triunfar deve trabalhar incansavelmente durante infinidade de horas. Mas só a uns poucos lhes é dado libertar-se de seu ego enquanto pintam. Quando isto sucede, surge a obra-prima. Mais tarde, lhe perguntou um discípulo: "Quem é um Mestre?" E o Mestre lhe respondeu: "Qualquer um a quem tenha sido dado libertar-se de seu ego. A partir de então, a vida desta pessoa será uma obra-prima". (3.57)

Moreno tem uma visão otimista do homem. Ao nascer ele é gênio em potencial e, pela vida a fora, sujeito em constante "vir-a-ser", movido pela força criadora da espontaneidade. Todos nós psicodramatistas sabemos disso. No entanto, somos coerentes com essa visão no nosso trabalho prático? A utopia moreniana ainda vale para nós? O Psicodrama está vivo, como visão de homem e de mundo?
Pela sua versatilidade e flexibilidade, o psicodrama vem acolhendo, desde a sua fundação, vários aportes teóricos de diferentes correntes de pensamento. Essa aceitação ocasionou a convivência de diversas visões de homem, linhas teóricas e práticas terapêuticas sob o manto envolvente e o título globalizador de "Psicodrama".

Para resumir em uma frase, podemos dizer que o núcleo da proposta psicodramática está no "encontro", vivido no "momento", com a energia propulsora da espontaneidade, pelo exercício de papéis. Esse enfoque no ato e na relação com o meio ambiente se ancora na fenomenologia, no "aqui e agora", no fluir constante dos momentos.

A nota mais marcante do conjunto da obra de Moreno é a teoria da espontaneidade-criatividade. Entretanto, algumas vezes nos esquecemos do "aqui e agora", da "sponte", do "devir", da genialidade potencial e ficamos fixados nas causas e nos "porquês" dos comportamentos atuais perturbadores ou indesejáveis. Buscando a "peça do relógio que não está funcionando bem", ou "o parafuso que precisa ser apertado", focalizamos o passado, em prejuízo do presente e de sua projeção no futuro. Esquecemos o homem criador, ao pensar que podemos entendê-lo segundo o modelo mecanicista. No entanto, somos muito mais do que a soma de percepções, atos, registros, relações, memórias, estados internos, etc... Somos seres capazes de amar, de imaginar, de criar e de evoluir.

As idéias morenianas, que originalmente se alicerçaram na filosofia existencial humanista, na sociologia e na psicologia, têm sido agora confirmadas por modernas pesquisas em outras áreas de conhecimento científico, entre as quais a neurobiologia, a física e a biologia.

Recentes investigações, como os estudos de Karl Pribran sobre o Modelo Holográfico do Cérebro (6), de David Bohm sobre a Teoria do Campo Unificado (5) e de Humberto Maturana, criador da Biologia do Conhecimento (2), parecem coincidir e consolidar os pontos essenciais da teoria moreniana. A vida se programa para o sucesso (evolução) e é nesse movimento evolutivo que a espontaneidade adquire o seu sentido maior, como energia propulsora ligada ao próprio projeto criador, onde a intencionalidade é mais importante do que a causalidade.

Os seres vivos são sistemas dinâmicos que interagem com o meio ambiente, buscando o equilíbrio pela adaptação. Algumas linhagens não puderam conservar sua adaptação (insuficiente espontaneidade) e por isso se interromperam. Outras criaram variações estruturais correspondentes às exigências das alterações do meio ambiente, mantiveram a adaptação e sobreviveram (espontaneidade apropriada).
Segundo Bohm "entidades físicas que parecem ser separadas no espaço e no tempo estão realmente unificadas de uma maneira implícita ou subjacente. Por baixo de uma "esfera explicada" ou explícita de coisas e acontecimentos separados, se encontra uma "esfera implicada" ou implícita de totalidade indivisa e este todo implicado está simultaneamente disponível para cada parte explicada". (5:9)

A vida é ordenada em seu processo não manifesto, o qual é muito maior do que o manifesto. A esfera implicada é onde tem lugar o holomovimento, uma ordem que flui, originando a matéria, a energia, o pensamento, enfim tudo que está ao nosso alcance perceber e muito mais ainda.

No processo de evolução orgânica, do simples para o complexo, as transformações se dão segundo rumos possíveis a cada instante, conforme se apresentem as relações organismo-meio, compensando-se as flutuações deste último pela plasticidade estrutural daquele.

A ordem natural prossegue como energia formativa, realizando a regulação de infinito número de processos que se organizam em ecossistemas. Especialmente no homem, a evolução adotou uma estrutura extremamente versátil e plástica, que expandiu o alcance de possíveis condutas. O ser humano é capaz de executar feitos extraordinários. Uma capacidade imensa de poder criativo está contida em nossos genes, pronta para ser despertada. Esse vasto potencial se reveste de uma impetuosa intencionalidade de expressar-se e precisa apenas ser desencadeado pela interação com o meio ambiente, que funciona como um detonador.

Como a cada avanço a vida leva consigo os ganhos anteriores, a informação codificada do universo se encarna no corpo evolutivo e nos faz depositários dos padrões de todas as formas de experiências desenvolvidas através dos tempos. Herdamos um sistema cerebral primitivo, geneticamente programado, onde dispositivos inatos desencadeiam conjuntos de resposta que garantem a sobrevivência.

A essas áreas cerebrais primitivas, se agregou posteriormente o neo-córtex, com uma estrutura mais complexa e possibilidades praticamente ilimitadas de novas operações. Este novo cérebro processa o potencial herdado, organizando-o à luz das experiências vividas pelo sujeito, as quais funcionam como elementos estruturantes, e o transforma em dados articulados e disponíveis para a criatividade, ou seja, para a solução de problemas, para a tomada de decisões, para a construção de uma singularidade consciente e dinâmica.

A cérebros mais complexos correspondem seres progressivamente interativos, capazes de uma inteligência mais aberta e flexível. Maior interação com o meio ambiente proporciona um número crescente de experiências que se transformam em informação. Tal informação é organizada, avaliada e processada de tal maneira que se toma a base para novas combinações, as quais, por sua vez, permitem experiências ainda mais ricas e complexas. O resultado é que, quanto mais experienciamos, mais nos tomamos capazes de experienciar, quanto mais fenômenos registramos, maiores as possibilidades de interagir e quanto mais aprendemos, mais podemos aprender. A estruturação do conhecimento se dá na passagem da experiência concreta para o abstrato, ou seja, no processo de sintonizar e interpretar a manifestação do não manifesto (o fenômeno), de forma a torná-lo acessível para nós.

É, pois, pela interação com o meio circundante, através do exercício de papéis, que ocorre a transferência e operacionalização do potencial do cérebro antigo para o neo-córtex. Desde nossos primeiros atos, primitivos movimentos musculares do bebê, detonamos um processo intencional de interação estruturante.

Ou seja, a estruturação da identidade se dá a partir de infinitas possibilidades que revelam o projeto maior. O ser humano se faz continuamente, recria-se em cada ato, integrando-se com a força orientadora dos mecanismos de regulação biológica, dos quais as emoções são a expressão maior.

Sentimentos e emoções servem de guias internos para as escolhas e refletem os mecanismos da própria vida no desempenho de suas tarefas; são a referência inicial para as interpretações do mundo que nos rodeia e para o significado que damos às experiências vividas, à luz das quais construímos a subjetividade e o senso de continuidade.

Experienciando as possibilidades e recebendo e processando feedback, o cérebro gera um controle volitivo progressivamente consciente sobre o conhecimento estruturado. E, à medida que se constrói a consciência, cria-se a liberdade, pois esta se baseia na intencionalidade consciente. A consciência se constrói pela ação, a qual existe para modificar uma situação (relação) que envolve uma intenção. Essa capacidade de desenvolver-se pela interação é a própria essência da evolução, tanto da vida como do indivíduo. A ruptura se dá quando em um sistema os sub-sistemas crescem caoticamente, com independência uns dos outros, desrespeitando as relações recíprocas e o equilíbrio ecológico. Assim, células podem crescer harmoniosamente ou pode ocorrer um câncer, quando algumas células se reproduzem sem levar em conta o equilíbrio geral. Assim também, o pensamento ou as emoções podem se desordenar, deixando de corresponder à ordem não manifesta.

Os atos humanos pertencem a essa intencionalidade do não manifesto e devem ser dimensionados segundo o grau de sua proximidade em relação ao objetivo da própria criação.

A realização da condição humana se faz pelo convívio com o outro, no encontro do indivíduo com sua natureza última que é de "ser social". Se mantivermos vivo o processo de experienciação e atualização do potencial do indivíduo, ele saberá se resgatar e se escolher. Dentro dele, a energia que movimenta a sua existência está buscando as melhores condições de realização.

Esta extraordinária capacidade de adaptação e flexibilidade para encontrar o caminho é resultado do mesmo tipo de inteligência inata dos ecossistemas da natureza. Se transportarmos essa idéia para o social e para o comportamento dos grupos, chegaremos aos fundamentos do anarquismo de Kopotkin, segundo o qual é a excessiva organização, a estratificação social e o Estado que destroem o potencial humano, pois se o povo tiver a liberdade de agir como bem lhe aprouver, segundo a natureza e descobrindo o que realmente é melhor para si, a ordem social emergirá por si mesma.

Os grupos humanos deixados em paz encontram o seu ponto de equilíbrio pela harmonização da interdependência de seus membros e o desafio reside em não criar obstáculos e demasiada interferência, de forma a permitir a manifestação da intencionalidade do não manifesto.

Os desvios do objetivo primordial se dão pelas distorções da cultura e suas influências, inicialmente na matriz de identidade e a seguir na rede sociométrica, por privação de oportunidades e bloqueios da espontaneidade.

As pessoas são criadas desconfiando de seus próprios organismos, ensinadas a afastar-se do poder pessoal, a buscar fora de si as informações, o conhecimento, a saúde, o equilíbrio e a controlar seus pensamentos, emoções e desejos através de esforços musculares, inicialmente conscientes e depois transformados em tensão inconsciente e não deliberada, que permanece bloqueando o potencial.

O mundo em que vivemos é duro, exigente, muitas vezes parece se opor às metas e aos propósitos maiores, tornando necessária a mobilização de recursos para promover uma interação criativa.

O primeiro passo a ser dado nesse sentido é sair dos limites das conservas culturais e descobrir os numerosos papéis que não estamos autorizados a viver, permitindo à espontaneidade operar em nosso cotidiano individual e grupal. A força universal está sempre pronta a fluir, impulsionando nosso "vir-aser", provocando mudanças e ampliando nossas possibilidades de experienciação. Basta para tanto que haja condições mínimas. Os resultados nem sempre serão de domínio consciente e podem ocorrer sem nosso conhecimento no sentido racional do termo. Sua pré-condição é um estado de disponibilidade e prontidão, uma presentificação que produz o estancamento da consciência como conhecimento e controle, enquanto libera a "consciência-corpo", "consciência-ato", consciência plena (em inglês, "awareness") que permite a ação da intencionalidade da esfera implícita.

O trabalho terapêutico, dentro deste pressuposto, será criar situações geradoras de recursos, facilitadoras e estimulantes ao afloramento da espontaneidade. Pelo exercício de papéis, recursos adormecidos ou desarticulados podem se apresentar sob configurações originais ou novas combinações, redefinindo suas aplicações, com vistas às exigências do momento, desenvolvendo a flexibilidade de conduta e a clara representação de metas. Nesse caso, a volta ao passado tem sentido apenas para levar a pessoa a perceber o que um acontecimento vivido representa para seu presente e portanto para o seu futuro, implicando em uma tomada de decisão e redefinição com os recursos de hoje, posicionando-se no mundo, agora, com vistas ao amanhã.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. CHOPRA, Deepak. A Cura Quântica. São Paulo, Best Seller, 1989.
  2. MATURANA, H. e VARELA, F. El arbol del Conocimiento. Santiago, Chile, Ed. Universitária, 1990.
  3. MELLO, Antony de. Un minuto para el absurdo. Bilbao, Espanha, Sal Terrae, 1992.
  4. PEARCE, J. C. A Criança Mágica. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1989.
  5. TALBOT, Michael. O Universo Holográfico. São Paulo, Best Seller, 1991.
  6. WILBER, K., BOHM, D., PRIBRAM, K. e outros. El Paradigma Holográfico. Bs.As., Argentina, Troquel, 1992.

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AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
Josefina Macedo, Psicóloga Psicodramatista

A Neuropsicologia é a ciência que estuda a relação entre o cérebro e o comportamento humano. Também pode ser descrita como a análise sistemática dos distúrbios do comportamento que se seguem a alterações da atividade cerebral normal, causadas por doenças, como Alzheimer, por exemplo, e lesões, malformações, etc.

A Avaliação Neuropsicológica (AN) é o exame das funções cognitivas do indivíduo: orientação, atenção, memória visual e verbal, raciocínio, linguagem, capacidade de abstração, entre outras funções. Deve ser feita somente por profissional especializado, exigindo fundamentação consistente da Psicologia e familiaridade com os testes padronizados, para avaliar especificamente aquelas funções mentais, além do conhecimento do sistema nervoso e suas enfermidades.

A AN poderá ser requerida no declínio cognitivo, quando existem prejuízos de áreas cerebrais com alterações neurológicas (traumatismo craniencefálico, epilepsia, acidente vascular cerebral), na diferenciação entre síndromes psicológicas e neurológicas, como a depressão e a demência, ansiedade e transtornos como TDA/H (Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade), entre outras demandas. Há também indicação de avaliação em decorrência do uso abusivo de álcool e outras drogas ilícitas, uma vez que o funcionamento neuronal pode sofrer alterações pelo uso de qualquer droga, vindo o indivíduo a sofrer modificações nos processos de pensamento, atenção, sentimentos, emoções, concentração, memória, coordenação motora e nível intelectual.

O exame neuropsicológico prevê determinado número de sessões (6 a 10) dependendo, sempre, do ritmo que o paciente adota. Essas sessões incluem entrevista de coleta de dados, com pacientes e/ou familiares, testagens e devolução dos resultados. A referida devolução será realizada pelo profissional, com base nos resultados obtidos. Este construirá um laudo (documento pessoal do cliente) com estes dados, onde as orientações quanto à reabilitação das funções prejudicadas estarão presentes, bem como os encaminhamentos a outros profissionais, quando necessários (neurologistas, psiquiatras).

É importante considerar que, na reabilitação neuropsicológica, sessões de orientação à família ou cuidadores do paciente são fundamentais, sempre que este for criança, jovem/adulto com prejuízos significativos ou, ainda, idosos que necessitam amparo. A presença dos cuidadores, além de auxiliar no sucesso do tratamento, imprime a este um sentido de comprometimento com o bem-estar daquele com o qual nos responsabilizamos.

Através dos resultados da AN pode-se propor uma intervenção ou reabilitação, focada nas funções cognitivas que possuem déficits e nos distúrbios psicológicos e/ou psiquiátricos, quando houver. O objetivo será oferecer a recuperação possível ao caso, melhor qualidade de vida ao paciente e minimizar os sintomas e o grau de sofrimento deste, assim como dos familiares. apropriada recuperação e possibilidades de uma vida com maior qualidade.

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AS PERDAS E AS DORES DA ALMA...
Josefina Macedo, Psicóloga Psicodramatista

Desde que nascemos nossa vida se desenvolve em interação com outros seres humanos. É na relação com a mãe, ou pessoa que desempenha este papel, que nos construímos como pessoas e é com base nas vivências decorrentes deste vínculo que apreendemos como é o mundo “lá fora”. Nas relações que se seguem a partir daí, continuamos nosso desenvolvimento num processo de co-construção de novos papéis e é inevitável que sejamos atingidos, em diferentes intensidades, por aquilo que experenciamos.

Deixar-se tocar, mobilizar-se pelos acontecimentos a nossa volta, questionar a modalidade das relações que desenvolvemos e buscar transformações nos aspectos insatisfatórios, é condição para que saibamos onde estamos “pisando” no enigmático e surpreendente caminho da vida.

É preciso que estejamos conscientes do nosso papel no mundo e que sejamos responsáveis pelo que fazemos, bem como pelo rumo que nossa existência toma, em diferentes momentos desta caminhada. Entretanto, ocorrem eventos sobre os quais não temos controle e, portanto, somos “convidados” a uma readaptação forçada, tanto no abandono, quanto na adoção e construção de novos papéis.

Sofrer um trauma, como a perda por morte de alguém a quem amamos muito, nos impõe cruel sofrimento, dilacerante e desorganizador e é, conforme relatam pessoas que vivenciaram tal situação, “uma dor daquelas que comprimem a alma”... neste caso, passar por um período de retração, murmúrios, pesares e intensa angústia e ansiedade, é esperado. Este momento pode vir acompanhado de insônia, inapetência, raiva, inquietação, sensação de desamparo, entre outros sintomas.

Nesta vivência tão particular e dolorosa, se faz necessário uma revisão de “esquemas”, num movimento de renúncia a determinados papéis e aprendizagem de outros. No entanto, é um processo que, além de difícil, pode ser lento, ocorrendo no ritmo peculiar e único de quem o vive. Diante desta experiência, à qual o indivíduo é exposto, existem fatores que são fundamentais para uma melhor readaptação e construção de novas maneiras de estar no mundo. A principal é a estrutura psíquica da pessoa implicada, seus recursos internos e a possibilidade de disponibilizá-los em situações de stress intenso. Também a presença da família, o círculo social de apoio e a fé constituem, entre outros recursos, fontes valiosas para a reorganização no novo papel.

Importantíssimo salientar que apoiar não significa tentar retirar ansiosamente a pessoa traumatizada do estado em que se encontra, porém oferecer-lhe acolhida e, principalmente, uma escuta respeitosa acerca daquilo que lhe convier compartilhar. Se estamos ali para, verdadeiramente, amparar o outro, não será impondo-lhe nossas crenças do que “é melhor”, que obteremos êxito neste propósito.

Os calmantes, os programas realizados, os inúmeros chás ou copos de água que lhe são oferecidos, são nada menos do que estratégias, talvez inconscientes, de lidarmos com a nossa angústia ao assistirmos tão implacável sofrimento. Se tivermos consciência desta dificuldade em lidar com a dor de quem estimamos e humildade em abandonar nossas crenças, validando e considerando o sofrimento alheio, isso basta.

Ajudar (auxiliar, favorecer) significa sairmos do nosso lugar e nos colocarmos, sincera e inteiramente no lugar do outro e, a partir daí, oferecer o que pode ser mais expressivo neste momento: um espaço interno, onde possamos acolher e respeitar a dor alheia. Apoiar e amparar, a fim de que o outro se reconstrua, conforme seus particulares parâmetros, no ritmo e tempo necessários, para a superação da sua pessoal e intransferível dor... Isso é cuidar e amar: caminhar juntos, no resgate das “peças extraviadas”, de quem entende que, por hora, perdeu parte de si...

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DEPENDÊNCIA QUÍMICA
Josefina Macedo, Psicóloga Psicodramatista

Há algum tempo atrás denominávamos “vício” o comportamento repetitivo, caracterizado pelo consumo de determinada substância. Hoje sabemos, claramente, que o que era chamado “vício” é uma doença que leva inúmeras pessoas a ocupar vagas em clínicas particulares especializadas ou nos leitos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa doença chama-se dependência química e nada tem a ver com o “hábito” ou uso consciente, por parte do sujeito.

A dependência química é um transtorno crônico caracterizado por três elementos principais: compulsão por busca e obtenção da droga, perda de controle em limitar o consumo e surgimento de estados emocionais negativos (ansiedade, irritabilidade) quando o acesso à droga é impossibilitado (abstinência).

Determinadas condições constituem fatores de risco que podem predispor ao abuso das drogas. Condições culturais e sociais como permissividade social, disponibilidade da droga, extrema privação econômica, estão entre elas. Condições interpessoais como, por exemplo, famílias com condutas relacionadas a álcool e drogas, manejo familiar pobre e inconsistente, personalidade dos pais, abuso físico, conflitos familiares ou em outros contextos e associação com amigos usuários de drogas também contribuem. Existem os fatores psicocomportamentais, como problemas de conduta precoces e persistentes, fracasso escolar, vínculo frágil com a escola, comprometimento ocupacional, personalidade anti-social, psicopatologias (TDAH, depressão, transtorno de conduta, ansiedade), atitudes favoráveis para com as drogas e inabilidade de esperar gratificação. Além destes, há os fatores bioenergéticos, tais como genealogia positiva para dependência química e vulnerabilidade psicofisiológica ao efeito das drogas, que também estabelecem condições de alto risco, para desenvolver a dependência. Ainda, fatores neurobiológicos são preponderantes para o desencadeamento e manutenção dos sintomas associados à dependência química.

Ambiente estável, alto grau de motivação, forte vínculo pais-criança, supervisão parental e disciplina consistentes, ligações com instituições próprias e associação com amigos não usuários, podem de alguma maneira tornar o indivíduo menos suscetível à dependência química. Sabe-se que quanto mais precocemente o indivíduo tiver contato com álcool, por exemplo, maiores serão as chances de desenvolver uma dependência em relação a essa e/ou outras substâncias.

Por outro lado, percebe-se que, especialmente em comunidades onde o consumo de álcool está bastante associado ao status de ser “adulto”, pode tornar-se difícil, a um adolescente, conseguir ponderar, sem apoio familiar, qual a melhor escolha. Dizer “sim” a uma sociedade que lhe impõe o consumo, como símbolo de “macheza”, é muitas vezes dizer “não” à saúde física e mental e à própria vida! E pode começar aí um caminho verdadeiramente penoso de ser trilhado...

Uma das importantes estratégias para prevenir o abuso é buscarmos ser pais ou cuidadores presentes, construir possibilidades de diálogo e conceder liberdade para a exposição dos sentimentos, dúvidas e questionamentos. Tarefa nem sempre fácil, mas absolutamente necessária para prevenção do desenvolvimento do quadro de dependência química. Além disso, precisamos estar atentos às nossas atitudes como pais que podem desencadear comportamentos disfuncionais em nossos filhos. Vamos fazer uma revisão do nosso papel, como cuidadores?! Vale à pena refletir...
e prevenir...
e valorizar o que é essencial, ao invés de esperarmos pelo “acidental”, muitas vezes, de difícil ou impossível conserto!!!

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ESPONTANEIDADE OU CRISTALIZAÇÃO
Josefina Macedo, Psicóloga Psicodramatista

O mundo evoluiu numa velocidade que fez com que nos sintamos “perdendo um pedaço do filme”, já que, definitivamente, nosso tempo não acompanha, nem processa as inúmeras modificações pelas quais os conceitos passam... A Era Industrial já havia causado profunda revolução no cérebro humano e no conceito de tempo e espaço. Na Era da Informação nova e profunda reestruturação no processo de sobrevivência e evolução. E nós...correndo atrás! Essa dinâmica de tempo acelerada resulta numa desconexão com nosso Eu-interior e acabamos perdendo o eixo interno e nos distanciando de quem somos nós.

Atentos às mudanças e buscando estar adequados a essas transformações, negligenciamos nosso maior potencial que é a espontaneidade. Espontaneidade, não espontaneismo, que é o agir sem refletir. Espontaneidade: capacidade que o indivíduo possui de dar respostas adequadas a novas situações ou, ainda, de dar uma nova resposta a uma situação antiga. Ser espontâneo significa estar presente às situações, configuradas pelas relações afetivas e sociais, procurando transformar, ajustar, recriar... É estar adequado aos contextos em que vivemos, sem que isso esteja em conflito com os valores que desenvolvemos.

É um conceito que considera o âmbito social e inter-relacional, porém valoriza, sobretudo, nossa essência. Desenvolver a capacidade de estar adequado às situações talvez seja nossa ferramenta mais valiosa para enfrentar as dificuldades, entretanto, muitas vezes, acabamos perdendo a espontaneidade que nos permite dar as boas respostas diante das circunstâncias, em função de inúmeros fatores. Os motivos, que bloqueiam este recurso interno, podem ser a intensa agitação da vida moderna, as demandas, quase sempre maiores do que aquilo que podemos suportar, as intensas e frequentes exigências dos diversos papéis que desempenhamos em nossa vida, ambiente familiar cujo clima é inibidor, entre outros.

Há uma tendência de substituirmos a espontaneidade por respostas fixas e reguladas, que não permitem reações novas ou originais. Por segurança, optamos por aquelas que sempre foram dadas, por respostas automatizadas, por padrões familiares ou reações socialmente aceitas... Essa cristalização e inflexibilidade, no pensamento e nas ações, pode nos levar ao adoecimento, fazendo com que nosso equilíbrio se perca, pois funcionamos somente sob a ótica do outro, um referencial externo que nada tem a ver conosco!

Viver sem a possibilidade de ter iniciativas pessoais e o reconhecimento de nossa vontade resultará, invariavelmente, no embotamento da espontaneidade, sem a qual nos tornaremos incapazes de dar respostas criativas e originais aos acontecimentos a nossa volta. Como seres humanos que se amam e se respeitam, nosso compromisso é resgatar a saúde, sentindo-nos adequados no desempenho dos nossos papéis e nas relações, vivendo em consonância com nossa alma, respeitando nosso eixo interno e, ao mesmo tempo, mais conscientes e responsáveis pelo nosso papel no mundo...

Precisamos reconhecer que nossas condutas e pensamentos estão realmente de acordo com nossos valores! Um dos grandes segredos da vida saudável é poder viver em sintonia com valores e situações que fazem ressonância em nosso mundo interno...

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O AMOR NOSSO DE CADA DIA
Josefina Macedo, Psicóloga Psicodramatista

Passamos a vida sonhando com o príncipe que nos seduzirá pelo resto dos nossos dias! Idealizamos o par perfeito e nesta caminhada, vamos “descartando” as peças improváveis que não se encaixam no nosso quebra-cabeças. Quando nos sentimos preparados para a vida a dois, casamos, vamos morar juntos, concretizando o tão esperado sonho - constituir uma família, ao lado de um homem/mulher, ao qual prometemos coisas muito sérias, sem ter a menor noção do que isso significará pelo resto dos dias que viveremos ao seu lado!

Começa então a construção de um novo papel, que exige uma conduta associada a este papel...malabarismos para equilibrar gostos e gastos, maneiras de ver e sentir a vida, administração das coisas do dia-a-dia, da educação dos filhos, quando estes chegam, etc. A característica fundamental deste convívio deve ser a flexibilidade e a humildade em reconhecer o espaço do outro e a hora de recuar e respeitar, assim como fazer-se respeitar, tudo isso sem que a vida a dois não se torne um martírio! E nesta convivência onde a parceria e a cumplicidade deveriam ser absolutas, nem sempre a competição cede lugar...então...passamos as horas, os dias ou anos numa relação que mais parece um jogo de tênis! Os casais tentam, exaustivamente, “marcar o ponto” e, dessa forma, sentem-se “vitoriosos”, não sei bem em relação a que ou a quem...mas vitoriosos, porque aquele ao qual prometemos coisas muito nobres, há algum tempo atrás, está em desvantagem, perdeu, é o nosso adversário!!!!

É uma lógica ambígua, pois o companheiro é alguém que se escolhe para caminhar junto, unir forças, compartilhar ideias e ideais, projetos, dores e sabores da vida diária. Entretanto, ao invés de investirmos em nós mesmos, nossos projetos, nosso crescimento e desenvolvimento como pessoas, o que certamente nos tornará mais atraentes e envolventes, desperdiçamos nossa energia na destruição do outro! E o outro é nosso cônjuge!?

Pior do que viver assim é não ter a exata consciência de quem se é, tanto como pessoa, quanto, como parceiro, e não buscar os caminhos para sua satisfação e felicidades! Claudia Raia e Edson Celulari, por exemplo, parecem ter vivido, com tudo que uma relação tem de bom e de ruim, durante duas décadas e tiveram a coragem de serem verdadeiros e leais a si próprios, quando findaram a relação, onde os papéis de marido e mulher se esgotaram. Há quem diga que a relação não deu certo! Como não?! Deu certo, siiiim!!! Durante quase vinte anos! Não daria agora, quando se aperceberam que o vínculo se esgotou...mas pra isso é preciso correr um certo “risco” e autenticidade...características que pessoas que se conhecem profundamente conquistam quando o assunto é a busca da sua felicidade...

O amor da vida adulta consiste, entre tantas outras coisas, em manter essa disponibilidade de compartilhar, crescer juntos, rir das falhas, entregar-se, para o vínculo! Sem utilizar, perversamente, as dificuldades do outro, como arma letal que mata o afeto, o sexo e o futuro... não acreditamos, verdadeiramente, que o príncipe se transforma naquele ser verde, de aparência brilhante e gosmenta, sem o nosso auxílio, não é mesmo?!

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QUEM É ESSE NO ESPELHO?!
Josefina Macedo, Psicóloga Psicodramatista

Vida de gente grande não é fácil! Mas...quem foi que disse que tem que ser fácil para haver proveito, aprendizado e gosto?!
Ouvimos com freqüência a frase “o que é bom custa caro” e penso que essa máxima pode se aplicar também as conquistas imateriais da vida! Porém o custo, neste caso, tem a ver com o tanto de esforço e comprometimento envolvidos no processo de busca daquilo que planejamos obter e ser como pessoas...
Sem, nem por um momento, desmerecer as conquistas materiais, tão gratificantes e necessárias também, discuto aqui as conquistas íntimas, pessoais de cada um... aquelas “aquisições” que nunca mais nos permitirão voltar a ser os mesmos de antes...

Após a delícia de ser criança, experimentada na infância e a turbulência vivenciada quando se é adolescente, encaramos a difícil fase do jovem adulto que é tão cobrado! Estás trabalhando? Casado? Tens filhos? Só um menino? Ah, então vão atrás da menina...e por aí vai...incessante listagem de “critérios” que a vida nos impõe e que se não obedecemos a estes padrões, estamos à margem e podemos nos sentir sós... Parece que o alívio vem mesmo com a maturidade...tão doce quanto a infância, com sofrimentos, tal como a adolescência, e as mesmas cobranças do jovem adulto, mas com diferentes recursos e instrumentos internos para lidar com as cartas “ruins” que a vida nos apresenta! E isso faz toda a diferença! Ah, se faz...

Na maturidade as gavetas internas daquele roupeiro bagunçado se acomodam...os valores se consolidam e não tememos ser quem nós somos...se tivermos, claro, consciência de quem somos!!!

Percebe-se que grande parte das pessoas adota “personagens” no desempenho de seus papéis e em determinados momentos de sua história entram em conflito, pelos atrapalhos em que vivem, pela desordem que experimentam ou pela ruína em que transformam suas vidas, pura e simplesmente porque se desconhecem!
O processo de autoconhecimento realmente não é fácil, nem simples - requer atitude, persistência, dedicação e principalmente coragem! Temos que estar dispostos a enfrentar nossos fantasmas que embora possam parecer, num primeiro momento, assustadores, na verdade não o são tanto assim...pois se nos pertencem, vivem no nosso mundo interno, não podem ser maiores do que nós mesmos! Não importa o momento em que nos disponibilizamos a isso, o que importa é que quando decidimos que vamos nos apresentar a nós mesmos, é o exato momento em que isso deve ser feito...nem antes, nem depois...é agora! Quando desejamos nos conhecer é que é a hora certa!!!

Os caminhos escolhidos para tal são particulares a cada um...tem a ver com as crenças, com a disponibilidade emocional e/ou financeira, com a influência do meio em que vivemos, etc...não importa se é num centro budista, na biodanza, através de livros e debates, na terapia ou em outras formas que o indivíduo escolher para vivenciar este processo. O que é realmente importante é que o faça! E o faça verdadeiramente... Os ganhos são imensos! Deixamos de ser reféns dos nossos sentimentos e emoções, nos apropriamos de nós mesmos, desenvolvemos segurança e originalidade nas nossas atitudes, estabelecemos um parâmetro interno, além de experimentarmos genuína satisfação por conhecer profundamente essa pessoa com a qual convivemos vinte e quatro horas por dia! Nós mesmos!

Cuide dela, da sua companhia permanente e inseparável, escute sua voz interna, conheça e respeite os seus sentimentos, valorize suas conquistas íntimas e experimente a delícia (e as dores também) de saber quem você é! Não vai passar a vida alheio a si mesmo e tomar um susto ao olhar-se e pensar... Quem é esse no espelho?! Vai?!

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TERAPIA: ATO DE FRAGILIDADE OU CORAGEM?
Josefina Macedo, Psicóloga Psicodramatista

Interessante observarmos que crenças que carregamos e conceitos que acreditamos ser corretos sofrem profundas transformações quando nos deixamos levar pelo gosto de experimentar, ousar e nos arriscamos no processo da psicoterapia.. Sabe-se que o desconhecido amedronta, especialmente quando suspeitamos que o “estranho” que ainda está por vir surgirá do nosso interior e hoje convivemos com esse “outro” sem consciência disso!

Entretanto, percebemos que os indivíduos que se deixam seduzir pela possibilidade de aprofundar-se em si mesmo e embarcam nessa deliciosa viagem que é conhecer-se e apropriar-se de seus sentimentos, emoções e comportamentos, conquistam uma bagagem cujo valor é inominável!

Embora saibamos que nossa cultura privilegia o sucesso e nos esforcemos (às vezes compulsivamente) para parecermos exitosos em nossa vida, a condição de humanos não permite que permaneçamos em estado de euforia, assim como de tristeza, constantemente, porque não suportaríamos! O stress provocado pela euforia invariável ou tristeza permanente, nos adoeceria dramaticamente, se houvesse uma linearidade em qualquer dos dois estados! Existe uma tendência a negligenciarmos nossas emoções e sentimentos, sob pena de parecermos desajustados aos olhos daqueles que nos rodeiam. Então estocamos anos e anos de emoções reprimidas, entendimentos de fatos, completamente equivocados e inadequados, sem perceber que com isso estamos adoecendo, às vezes de forma sutil, mas ainda assim, adoecendo...

No senso comum, encontramos a falsa crença de que quem faz terapia se expõe, se fragiliza e isso pode nos tornar humanos menos capazes de suportar os eventos da vida...Ou isso nos tornaria simplesmente mais humanos e, portanto, mais honestos com a nossa condição, às vezes frágil, às vezes forte, mas absolutamente coerentes com a nossa condição...de humanos?!

A vida e o estar vivo é exatamente isso... tomar consciência de nossa natureza, experimentar a dualidade de todas as coisas...inclusive de emoções que sofrem variações conforme as experiências pelas quais passamos! Aceitemos nossa condição e nos permitamos viver e conviver com a polaridade dos sentimentos, dos acontecimentos, sem medo de perder o controle das situações!

Bem pior do que nunca ter fracassado é jamais ter sabido quem se é...bem pior do que acreditar que cuidar-se é falhar, é jamais ter tido coragem de olhar para dentro de si...Vemos, com freqüência, em situações dolorosas, como um velório, por exemplo, pessoas sugerindo àqueles que sofrem pelo ente querido que se foi, que tomem um copo d’água, comprimidos, um banho em casa, acreditando que estão sendo generosos... e talvez com essa verdadeira intenção, mas na verdade, tentando afastar o olhar da angustiante cena de dor, do choro incontido, do sofrimento que toca profundamente, porque a emoção do outro inquieta, desorganiza! Porque mexe com a emoção.

O choro e, às vezes, a tristeza, a dor, são absolutamente necessários ao nosso desenvolvimento e, ao contrário do que possa parecer, alivia e conforta...Também, ao contrário do que possa parecer, para fazer terapia são necessárias duas grandes virtudes...extrema humildade e imensa coragem. Afinal, não é todo dia que temos a possibilidade de “nascer” diferentes e, certamente, pessoas mais leves, felizes e bem melhores!!! Coragem!!!

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O PAPEL DO PSICÓLOGO NA MUDANÇA DAS ORGANIZAÇÕES
Marta Echenique

[...] antiquíssima sabedoria consiste em atribuir às forças do grupo um papel decisivo na estruturação da vida social. (Moreno, 1993)

Constantes e intensas mudanças no mundo estão provocando revisões em todos os setores da vida humana, com significativas transformações na forma de pensar as relações e as estruturas organizacionais.

As inovações tecnológicas e as diferenças culturais vividas no mundo globalizado provocam o surgimento de novas necessidades, insatisfação com velhas formas de pensamento e busca de novos estilos de ação e/ou gestão. A aceleração das transformações mexe com as empresas, traz a consciência da urgência de adaptação à nova realidade, ao mesmo tempo em que deixa em seu rastro incertezas e contradições - a fase de transição é desgastante, leva tempo, traz insegurança e causa inquietação nas pessoas envolvidas.

Muito se fala da necessidade de novos modelos de gestão empresarial, mas sabemos que há grande distância entre o discurso e a prática. Se não há dúvidas sobre a existência de uma vontade consciente de mudança, percebe-se também a presença de entraves inconscientes que a impedem.

Surge então a pergunta: O que tranca ou dificulta a implantação dos novos modelos? O que se pode fazer a respeito?

Para responder a estas perguntas, vamos desenvolver duas linhas de pensamento: a teoria sistêmica e a metodologia sociopsicodramática de Jacob Moreno para intervenção transformadora em grupos.

Sistema é um conjunto de unidades relacionadas de maneira funcional em que as partes reagem como um todo, buscando sempre um estado de melhor equilíbrio. As partes componentes, ou subsistemas, se inter-relacionam mas não se somam, ou seja, o todo é maior que as partes.

A teoria sistêmica possibilita uma visão do universo que vai desde micro-sistemas até macro-sistemas. Neste enfoque, o homem pode ser visto como um sistema composto por subsistemas (como o sistema ósseo, muscular, circulatório, etc.) que, por sua vez, faz parte de sistemas maiores como a família, seu grupo de amigos, o local de trabalho, a comunidade, o país e outros.

    Os sistemas agem segundo os seguintes princípios:
  • princípio de totalidade
  • princípio de auto-regulação
  • princípio de limites.

Segundo o princípio de totalidade, os elementos componentes de um sistema são subsistemas que reagem conjuntamente como um todo.

Segundo o princípio de auto-regulação, os sistemas estão em constante movimento, regulando-se para não se romper e para manter a identidade.

Segundo o princípio de limites, os sistemas e os subsistemas separam-se por fronteiras ou limites que variam da extrema rigidez à flexibilidade, isto é, de pouca ou quase nenhuma permeabilidade e péssima comunicação a uma boa permeabilidade e comunicação eficaz.

Os sistemas encontram seu ponto de equilíbrio pela harmonização da interdependência de seus subsistemas. O conflito representa uma divergência interna do sistema, onde um subsistema busca seu melhor equilíbrio ignorando a interdependência dos elementos do sistema maior.

Os conflitos produzem desconforto e põem o sistema em um estado de disponibilidade para a mudança, na busca da reposição do equilíbrio. Ou seja, a evolução de um sistema se dá pela oscilação pendular entre equilíbrio/desequilíbrio.

Portanto, os conflitos podem ser muito positivos no aperfeiçoamento dos sistemas, sua presença é estímulo ao crescimento e promove a liberdade do homem para buscar alternativas criativas aos impasses.

A alteração de um elemento ou de um subsistema ressoará em todo o sistema, que poderá ou tenderá a sofrer alterações. Ocorrem pressões inter e intra-sistêmicas, tanto para produzir mudanças como para evitá-las.

A evitação tende a ocorrer em sistemas rígidos.

Nesses sistemas, uma ou algumas estrutura(s) relacional(is) colaboram na manutenção do status quo. Podem até mesmo, aparentemente, assumir a função de facilitadoras, porém, agem inconscientemente no sentido de perpetuar a estrutura vigente. Com intervenções e movimentos barulhentos, que são apenas pseudomudanças, mantêm o sistema enclausurado e estático, de tal maneira que, após as pressões e descompressões, todos retomem suas conhecidas funções.

Cada evento ou comportamento está ligado a muitos outros. Pela repetição, vão formando padrões característicos constantes que funcionam para equilibrar ou auto-regular o sistema.

As inter-relações se estabelecem em complexos circuitos circulares que se fecham, interconectados por input e output e fomentam sensações de reconhecimento ou pertencimento aos membros do grupo.

Para preservar estas sensações que promovem bem-estar e segurança, assim como para manter o controle das fronteiras e hierarquias, pode ocorrer um enrigecimento do sistema, onde se investe na transformação e ao mesmo tempo se contra-investe.

A intervenção do psicólogo deve voltar-se para a desestruturação deste padrão, desconstruindo mitos e medos e dando lugar a novos equilíbrios e interações.

Pessoas e organizações agem subsidiadas por conceitos, analogias, metáforas, sistemas de classificação, normas, hierarquias e tecnologias intelectuais incorporadas à máquina social.

Assim, intervir em um sistema requer que se altere a atividade cognitiva.

Os sistemas são coletividades cognitivas que se auto-organizam, se auto-regulam e se transformam pelo envolvimento permanente dos sujeitos que as compõem. Modificam, reinventam ou reafirmam a instituição ao sabor de sua percepção, de seus interesses ou de suas necessidades e, ao mesmo tempo, são afetados pela estrutura da instituição.

A compreensão dos eventos e a forma de raciocinar do grupo tem uma influência direta na construção da história desse grupo. Alterando-se as narrativas, pode-se ressignificar a história e modificar as interações entre os componentes da instituição.

Interações entre homens e coisas são complexas, movidas por projetos, dotadas de sensibilidade, de memória, de reconhecimento, de julgamento; misturam-se subjetividades individuais e subjetividades dos grupos, bem como das instituições.

Mantém-se ou transforma-se a estrutura social pela interação inteligente e emocional das pessoas. Alterar padrões relacionais, nessa interação tão estreita sujeito-sistema, requer a realização de intervenções num sistema ampliado.

Pode-se ampliar o sistema para conter pólos complementares e trabalhar com lideranças estratégicas, tecendo e ampliando redes, de forma a propiciar novos padrões transacionais.

Focalizando as pressões que se intercambiam inter e intra-sistemas, pode-se realizar um trabalho em rede e propiciar um desequilíbrio, a fim de alterar o curso dos acontecimentos.

Jacob Levy Moreno, foi o criador da Socionomia, ciência que estuda o homem como ser em relação, imerso em redes vinculares. Ele propõe a utilização consciente das forças atuantes no grupo e trabalha a trama social submersa e suas intercorrências na vida do homem. Descreve os ritos e conselhos de grupo, desde os mais arcaicos, como formas primitivas de legitimação e de utilização da coesão do grupo, enquanto fonte inconsciente de crescimento.

Mais conhecido como Psicodrama (quando seu foco é a dinâmica subjetiva de um indivíduo) ou Sociodrama (quando focaliza a dinâmica dos grupos e organismos sociais), a metodologia de Moreno utiliza a dramatização, como forma de buscar a verdade através da ação. Estimulando a criatividade e a espontaneidade, longe de trazer soluções aos problemas, legitima-os, acolhendo a diversidade no espaço dramático. A vivência dos conflitos presentes com a incorporação das diferentes narrativas pode transformar seu sentido e abrir brechas para novas oportunidades nas relações.

Todo sistema vivo move-se no viés da tensão. A tensão gera movimento, vida, enquanto o equilíbrio associa-se à estabilidade do sistema. Um sistema altamente estável precisa da intervenção externa para injetar energia e vida no sistema.

Esse é o papel da assessoria psicológica: introduzir desequilíbrio e ajudar o sistema a sustentá-lo, até que possa organizar-se o suficiente para manter a transformação.

Ao contrário de um mero jogo de troca de papéis, a dramatização requer maturidade para promover uma percepção das motivações internas, dúvidas, críticas e receios. Requer alguém que possa, simultaneamente, colocar-se no lugar do outro e gerar uma troca enriquecedora de pessoa a pessoa. E proporciona revitalização, em que cada qual se sente valorizado e ganhador.

Na teoria sistêmica, retroalimentação ou feedback é o processo pelo qual se produzem modificações no sistema, programa ou comportamento, por efeito de respostas à ação do próprio sistema, programa ou comportamento. Os conceitos de sistemas e feedback são fundamentais ao trabalho em rede, tanto na identificação dos circuitos, como no acompanhamento das mudanças ao longo da intervenção. O processo passa pelas seguintes etapas:
  1. aplicação de avaliação que auxilie identificar o estado atual das interligações no sistema;
  2. identificação de lideranças formais e/ou informais (organograma ou aplicação de teste sociométrico);
  3. identificação de pontos estratégicos para estabelecer as conexões na rede (que inclui levantamento de focos mantenedores do sistema em questão e sua inclusão direta ou indireta no trabalho);
  4. desconstrução de mitos, segredos e crenças para construir novo paradigma;
  5. subsídios, treino e acompanhamento da intervenção até que se configure significativa mudança, com líderes fortalecidos e em condições de dar continuidade ao trabalho;
  6. ampliação da rede por ressonância ou agilização paralela. Nessa etapa as lideranças ampliam a intervenção em seus campos de ação, quer via coordenadores de suas equipes, quer diretamente. Aproveitam-se os potenciais “ajudadores compulsivos” ou provedores, capacitando-os como orientadores, multiplicadores ou capacitadores;
  7. reavaliação e re-direcionamento do trabalho.

O acompanhamento não deve ser dissolvido na fase crítica em que se desestabiliza o sistema. É útil criar redes de apoio que ajudem a suportar a instabilidade da transição. Esse suporte pode ser reutilizado pelo sistema em outras fases, quando a assessoria já houver encerrado seus trabalhos.

O método sociopsicodramático é norteador de todo o processo. O trabalho é uma construção coletiva, por meio de técnicas de ação, sociodramas, reuniões com dirigentes, com associados e dirigentes e com parceiros externos, em grupos variados.

Muitos empresários, inseguros quanto ao futuro, procuram fórmulas salvadoras em seminários, treinamentos, livros, programas de consultoria. No entanto, uma vez que os colaboradores sejam estimulados a exercer a espontaneidade e a criatividade, é nos próprios grupos que encontrarão a melhor resposta aos seus problemas. As soluções estão na própria organização. O profissional contratado fará apenas o papel de facilitador, para estimular a visão sistêmica e a explicitação dos vínculos e relações, promovendo o afloramento da sabedoria inconsciente e o surgimento de respostas que já estão no seio do grupo em estado latente.

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O PAPEL PATERNO NA ORGANIZAÇÃO DA IDENTIDADE
Bebeth Fassa
Marta Echenique

Para se pensar sobre o papel do Pai na organização da identidade do/a filho/a, é necessário atentar para o sempre presente jogo de forças, dinâmico e circular, das influências do social sobre o psíquico e vice-versa.

As necessidades de sobrevivência nos primórdios da humanidade levaram o homem a desenvolver seus traços inatos de provedor e protetor ao exagero de predador e dominador e o mundo patriarcal, tendo-se estabelecido justamente sobre estes traços e deles dependendo para sua preservação e desenvolvimento, os maximizou, valorizando tanto mais o homem, quanto mais seus esquemas de ação fossem geradores de poder.

Detentor do poder, o homem torna-se o representante da Lei, responsável pela repressão e controle indispensvel à manutenção desse modelo sócio-cultural, o qual se caracteriza por ter como fundamento macro-organizador o Estado e, como fundamento micro-organizador, a família, sendo que estes dois elementos refletem um ao outro.

Assim, enquanto no Estado o chefe representa o poder organizador, simbolicamente paterno, de quem o povo espera salvação e controle, ou seja, um papel de autoridade onisciente, na família, o pai representa esta mesma autoridade, entronizado na figura de “Pai-Lei”.

A expectativa social e a estrutura familiar que colocam o pai como lei restritiva e punidora, que educa pela repressão, impondo limites desde uma posição fria e distante, oferecem à criança apenas meio pai, deixando na sombra seus traços protetores e estimulantes do desabrochar da personalidade em seus aspectos sócio-afetivos. Sua natural função de cunha na re1ação mãe-filho, é valorizada apenas no seu aspecto restritivo de interdito à fusão original e ao prazer indiscriminado e pouco considerada em seu aspecto ampliador das vivências infantis.

A evolução histórica, que desencadeia a crítica de alguns segmentos sociais ao autoritarismo, à excessiva ingerência do Estado na vida privada e à repressão como elemento necessário na organizaçao política, leva também ao questionamento dos papéis e atribuições de cada um na família e no mundo.

O papel do homem, de pai e chefe de família, exercido com o amparo da autoridade e dignidade próprias a todo chefe, é questionado justamente em sua representação de Pai-Lei, identificada a Lei com domínio e repressão e, no desejo de alijar os aspectos agressivos e impositivos da autoridade, incorre-se no exagero de desvirtuar os traços de força, proteção e modelo de assertividade que o pai provê à criança.

Valorizando-se apenas as características fusionais e a aceitação feminina, negam-se os aspectos contenedores e amorosos próprios à virilidade, o que reduz a importância da figura masculina ao papel de pai biológico. No entanto, a hombridade é tão indispensável para a evolução harmônica e saudável do indivíduo quanto sempre foi para a estruturação do mundo.

A criança nasce profundamente unida à mãe e a vivência fusional deste momento é tão intensamente prazeirosa para ambas que só a entrada de uma nova figura pode ocasionar a necessária ruptura desta simbiose, ruptura esta que permitirá à criança a construção da própria identidade, dando-se conta de si como ser único, individualizado.

É ao pai que cabe oferecer esta oportunidade de ruptura e de nova vinculação e, se é verdade que pela triangulação ele impõe limites e frustra, também é verdade que com isso ele alarga o círculo afetivo da criança, abre os seus olhos para o principio de realidade e desenvolve o seu sentido de pertenência, pois só podemos nos incluir em um grupo se somos individualizados dentro dele.

É o pai que oportuniza à criança perceber o outro como outro e não como continuidade de si mesmo, viver os primeiros confrontos de desejos, estruturar a coragem de ser e de afrontar, aprender a questionar, ceder ou não ceder, medir consequências.

A tolerância materna não permite que a criança experimente as consequências de suas rusgas, enquanto a exigência paterna cobra reciprocidade de comportamento, ajudando na definição das fronteiras pessoais.

Nos aspectos míticos que organizam culturalmente a humanidade, o pai corresponde ao mito do herói que viaja pelo mundo, transformando-o e organizando-o; a mãe está relacionada à deusa, continente complacente e aceitador, sempre presente e disponível.

Isso não deve levar à apressada dispensa da presença e do afeto paternos, como elementos importantes no bom desenvolvimento infantil, mas podemos pensar que a ausência concreta do pai não é tão prejudicial à criança quanto a ausência da mãe.

Como representante na família do mundo extra-lar, o pai atua como ponte entre este e aquela, ofertando à criança proteção, confirmação e modelos de ação no mundo, que funcionam como vetores estruturadores da auto-confiança em relação à sociedade.

É através do nome, da imagem e da representatividade social do pai que o filho constrói o seu nicho existencial na organização sócio-política.

Cabe à mãe, que também usufrui dessa representatividade, explicar aos filhos o que o pai faz, simbolizar a ausência paterna como dedicação e amor, articulando seu esforço externo com os ganhos e benefícios familiares.

O pai pode não estar presente em pessoa, mas sua figura ocupa um espaço, uma vez que o filho saiba que ele esta fora justamente por força de sua expressão social. A sua ausência dá a dimensão de sua importância e funciona como uma presença simbólica.

O bom pai é o herói admirado, dedicado provedor, carinhoso definidor, que oportuniza à criança os parâmetros de identificação social, com senso de pertencer a uma linhagem - individualizado, mas pertencente. A boa mãe é aquela que por sua boa relação com o pai, admirando-o e valorizando-o, o mantém presente, enquanto ela mesma desempenha suas funções maternas de fornecimento da identidade afetiva, pela disponibilidade e pelo aconchego.

Claro está que o pai como a mãe serão tanto melhores em seus desempenhos quanto mais completos forem como seres humanos; ou seja, um homem que tenha bem desenvolvidos seus aspectos femininos, integrados harmoniosamente aos princípios viris e uma mulher que também integre às características femininas traços masculinos potentes e atuantes no mundo. Como seres humanos mais completos, eles exercerão seus papéis de forma mais flexível, aceitando sem conflitos a simbologia e as exigências profundas dos mesmos.

Tanto quanto a materna, a figura paterna é substrato da organização emocional. Pela frustração e pela restrição o pai ajuda a criança a delimitar a sua identidade e pela proteção e pela confiança ele a confirma no desenvolvimento de seus papéis relacionais; por estas vias a criança aprende a lidar com os limites sociais.

A ausência da função paterna de ruptura e socialização, com o correspondente exagero por parte da mãe na complementação dos aspectos fusionais da criança, dificultam e podem até mesmo chegar a bloquear a evolução emocional e cognitiva.

Como consequências desta ausência, encontramos uma variada sintomatologia: crianças com vocabulário e articulação infantis, atitudes afetivas regressivas, distúrbios de sono, dificuldade de abandonar o bico e a madeira, excessivo apego às figuras femininas, não só à mãe, mas à avó, à babá, à professora, com quem estabelecem uma relação ambivalente e pegajosa, sem consideraço com o outro.

Na versão adulta, tais dificuldades levam à impossibilidade de postergar e de medir as consequências de sua busca prazeirosa, o que se aproxima dos distúrbios de conduta e da psicopatia.

A valorização da mitologia paterna, completada pela concreta presença carinhosa de um homem, resulta na possibilidade de triangulação saudável, tanto mais satisfatória quanto mais o terceiro for valorizado pela mãe, enquanto adulto confirmador e protetor, amado por ela em seus traços viris.

A percepção inconsciente do sentido bio-psicológico da relação, por parte da criança, facilita que esta integre os aspectos naturais e sociais e, ainda, articulando as inserções da díade mãe-pai e seu significado neste triângulo, ela realiza sua primeira abstração, apreendendo, visceralmente, seu lugar na família.

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OBSERVAÇÃO FENOMENOLÓGICA DE RITUAIS INDÍGENAS DO ALTO-XINGU - O PSICODRAMA "IN NATURA"
Marta Echenique

Há alguns anos atrás, tive a incomum oportunidade de passar uma temporada no Parque Nacional do Xingu, convivendo intimamente com populações indígenas ali localizadas.

A vida tribal e suas características especiais de harmonia e equilíbrio me levaram a atentar para os processos dinâmicos e estabilizadores que concorrem para o ajustamento psicossocial da cultura em questão.

Os fenômenos observados se impuseram por si mesmo, mostrando-se como uma resposta psicodramática pura, no contexto da própria vida, sem contaminação teórica, de tal forma e com tal intensidade, que me propus analisar, a partir de conceitos teóricos psicodramáticos, alguns ritos e cerimônias das tribos localizadas naquela reserva indígena, considerando as experiências ritualísticas dos grupos em questão, bem como seu modo de ser e de viver, uma resposta cultural e adaptativa na solução de conflitos psicossociais.

As festividades ou cerimoniais xinguanos apresentam conteúdos dinâmicos e dramáticos que parecem contribuir para um processo equilibrador de busca de coerência entre o sujeito e o meio ambiente e entre os diversos grupos étnicos, em convívio cultural. Podem ser consideradas, dentro da distinção feita por Moreno, como “Terapia de Grupo”, segundo o qual utiliza-se esta classificação quando os efeitos terapêuticos são secundários, decorrentes de atividades primárias do grupo, sem o consentimento explícito dos membros e sem plano científico. (Em contraposição, “psicoterapia de grupo” tem como meta única e imediata a saúde do grupo e de seus membros, através de métodos científicos.) (1, pág. 78).

Chamam a atenção, no contato com as referidas populações indígenas, as características psicológicas dos indivíduos que transmitem a impressão de cordialidade, satisfação, adequação e equilíbrio. Também importante ponto observado é a convivência pacifica inter-tribal, fato raro entre os indígenas brasileiros que muito favoreceu sua sobrevivência como grupo, mesmo após o desagregador contato com os brancos. As observações e dados colhidos por mim foram confirmados e desenvolvidos posteriormente em consultas às importantes fontes de informação constituídas pelas obras de Orlando e Cláudio Villas Boas e Darcy Ribeiro (2 e 3) o que me possibilita transmitir aqui uma síntese histórica e descritiva da maneira de viver do Alto-Xingu.

O Parque Nacional do Xingu constitui uma reserva federal que visa à proteção da flora e fauna naturais da região e, sobretudo, assistir às tribos indígenas ali localizadas e defendê-las de contatos prematuros ou nocivos causados pelas frentes de expansão da sociedade nacional.

Quando me refiro aos povos do Alto-Xingu, estou seguindo os irmãos Villas Boas e falando a respeito de onze grupos tribais localizados no sul do Parque, zona irrigada pelos rios Kuluene, Ronuro, Batovi e Kurizevo, formadores do Xingu. Tais grupos conservam ainda praticamente inalterado o sistema de organização e associação de elementos constitutivos que os distinguiam na época de seu descobrimento.

Há entre eles, além de uma língua isolada, representantes de três das quatro principais famílias linguísticas brasileiras: Tupi, Karib, Aruak e Jê (A última não está representada.)

Essas tribos se concentraram há séculos na área, provavelmente fugindo ao choque com os brancos desde o período colonial e com outras tribos, também por estes deslocadas. Isoladas na região, estiveram a salvo de contatos com a civilização até o fim do século passado. Embora falando idiomas diferentes, se entrelaçaram de tal forma através de intenso intercâmbio, que hoje revelam, no seu conjunto, grande uniformidade cultural, ainda que conservando a independência e as características étnicas de cada tribo. Há inúmeras correspondências e relações de toda natureza que igualam e vinculam os grupos entre si: práticas mágicas, tradições mítico-religiosas, casamentos intertribais, relações comerciais. Graças a essa homogeneidade os índios xinguanos desenvolveram uma espécie de "mercado comum", no qual cada tribo propõe a troca de produtos de sua manufatura ou produção, que constitui sua "área preferencial" de comércio. Obrigados a refugiar-se na região, acabaram aprendendo a conviver e aplainar diferenças, podendo com isso sobreviver melhor. Ao criar alianças na luta contra tribos hostis, aprenderam a trocar auxílio, num instintivo reconhecimento da necessidade de defesa.

Foram criadas regras culturalmente prescritas para disciplinar os contatos e reuniões periodicamente organizadas para comércio. Como dizem textualmente os irmãos Villas Boas, “as tribos amigas do Alto-Xingu formam uma legitima “sociedade de nações”, relativamente mais perfeita que sua congênere civilizada. é que, ao contrário daquela, na sociedade xinguana não há preponderância dos mais fortes, nem super alianças controladoras, nem submissão dos mais fracos. Há um perfeito equilíbrio e respeito entre os seus co-participantes, sem que o potencial humano e a capacidade produtiva sejam levados em conta. Vivem sob um regime de mútua e benévola dependência.” (2, pág. 20).

Entretanto, o passado histórico dos xinguanos revela tumultos, invasões e choques internos entre os grupos em fase de acomodação. Muito tempo se passou até a fusão cultural de tribos tão diferentes apresentar seus bons resultados.

Interessa-nos justamente entender a transformação, os mecanismos que reduziram as tensões dissociativas, oportunizando a integração e a mudança. Parece evidente que tais grupos encontraram uma solução de convivência que era necessária e imprescindível para sua sobrevivência dentro das circunstâncias vividas. Por outro lado, essa mesma convivência é dificultada por séculos de condicionamento, que estruturaram uma tribo como entidade autônoma, cujas atividades são, em sua maior parte, destinadas ao preparo e ao exercício da guerra. Os padrões de virilidade são relacionados a atitudes belicosas: a guerra é o destino dos homens e a mais alta fonte de prestígio. é preciso ser herói para atingir a vida de além-túmulo. Os valores que movem os homens aos esforços mais árduos, que os motivam às atividades mais penosas estão ligados à guerra. Portanto. para deixar de combater, é necessária uma mudança de valores, uma redefinição, um crescimento. Uma elaboração, portanto.

Já me referi ao conteúdo dinâmico e dramático dos cerimoniais xinguanos. Diretamente relacionado ao exposto acima, o "Javari" constitui um jogo ou ritual esportivo realizado periodicamente entre duas tribos de cada vez. Sua finalidade consciente é de caráter recreativo, porém, se nos detivermos observando-o poderemos considerá-lo como a síntese cultural dos processos elaborativos de integração ao novo estado (entendendo por novo estado a convivência pacífica).

Vejamos como se desenvolve a festa cerimonial do Javari: o jogo em si consiste em atirar uma flecha rombuda e recoberta de cera por meio de um propulsor, visando atingir a coxa do adversário, que se defende com um feixe de varas, procurando se esquivar do projétil sem tirar os pés do chão.

Intensos preparativos em que as mulheres fabricam farinha e massa para beijus e os homens fazem flechas e renovam a pintura dos propulsores são acompanhados de vigorosos treinos diários para a disputa que se aproxima. A tribo organizadora convida outra tribo, vizinha, para participar da competição.

O período preparatório demora vários dias, incluindo cantos, danças e treinamento intensivo, que se torna mais elaborado à medida que se aproxima a data da testa. Numa etapa final, um grupo de jovens da aldeia procede como se fosse o grupo adversário, competindo com os anfitriões. Atiram dardos sobre um “calunga” (boneco) de palha. Encerrado o treinamento, são enviados embaixadores ou mensageiros, os “pareát”, para levar o convite à tribo competidora.

Por ocasião da chegada desta, alguns dias depois, os hóspedes são recebidos com complicados rituais de cortesia, sendo supridos de alimentos e água fresca pelas mulheres da aldeia.

Seguem-se cantos e danças dos visitantes, demonstrações de tiro ao calunga e defumação de dardos pelos pajés. As duas equipes alternam-se nas exibições de virtuosismo, provocando-se verbalmente e chegando mesmo a agressões verbais.

O ponto alto da competição é uma serie de disputas individuais, provocadas por desafio de elementos de uma equipe a representantes da equipe contrária. Os arremessos se caracterizam pela violência do golpe, a ponto de quebrar as varas do feixe que serve de escudo. Os duelos são "para valer", os participantes se empenham a fundo.

Encerradas as disputas, todos juntos dedicam-se a cantorias e danças, como confraternização. é esta a primeira vez que as duas tribos dançam e cantam juntas, desde o inicio da festa.

Durante os treinos, e sobretudo no último dia, os índios pintam o corpo e adornam-se com os mais vistosos e variados enfeites de penas, cintos e braçadeiras de couro de onça e colares de contas e conchas.

Não me parece exagero afirmar que o cerimonial descrito constitui um sociodrama, no qual são trabalhadas as relações entre os dois grupos e resolvidas as situações de rivalidade e hostilidade, através da dramatização das mesmas.

O período preparatório corresponde à etapa de aquecimento, o qual vai se tornando cada vez mais especifico, à medida que a festa se aproxima.

A dramatização se caracteriza pelos papéis sociodramáticos de competidores, assumidos pelo grupo. Há, em verdade, um comprometimento afetivo e vivencial, uma liberação de energia e ação, que se traduz num tratamento terapêutico coletivo.

Moreno utiliza o termo “acting out” para designar o processo de concretização em atos dos pensamentos e das fantasias. Através do "acting out", o protagonista cria no cenário aspectos do seu mundo interior resultantes de suas experiências passadas e atuais, bem como seus sonhos e fantasias.” (4. pág. 45).

É uma atuação terapêutica, em que situações conflitivas são expostas, encaradas e assumidas, em ambiente controlado, como caminho para a solução das mesmas, ao invés da atuação irracional na própria vida. Os protagonistas vivem um encontro com as próprias emoções, objetivando no comportamento hostil a rivalidade e a agressividade que as circunstâncias sociais não Ihes permitem exprimir e cuja existência não reconhecem totalmente no plano consciente.

Moreno diz que: "um dos problemas do tratamento psicodramático consiste em induzir o sujeito a uma representação adequada das dimensões vividas e não vividas de seu mundo privado". (5. pág. 42). No caso, a prescrição cerimonial oportuniza a representação e o conseqüente envolvimento emocional e ação terapêutica.

Rojas Bermudez afirma que “Catarse de Integração é o resultado final de uma série de processos, isolados no seu início, que confluem em determinado momento, inter-relacionando-se e produzindo um resultado final comum, diferente de cada uma das dificuldades parciais”. Ainda: “Na Catarse de Integração, o que sai é o próprio paciente e, ao sair de algo que o continha, realiza seu EU, expressa-se, estabelece contato com os demais integrantes da situação psicodramática, na experiência vivida em comum”.

Diz Moreno: “A Catarse de Integração é engendrada pela visão de um novo universo e pela possibilidade de um novo crescimento”. (4. pág. 42 e 43).

Penso que, na cerimônia relatada, houve a vivência de uma experiência de reciprocidade e mutualidade, um contato profundo na vivência de emoções reprimidas e uma mudança de qualidade nos grupos participantes. Os diversos procedimentos preparatórios culminaram na apresentação simbólica das situações e relações conflitivas e, ainda que “permanecendo fora da realidade” foi possível a realização catártica nos níveis verbal e corporal, possibilitando a objetivação das fantasias e dos papéis e relações não aceitos. Tornou-se possível, então, viver a confraternização e assumir os novos valores que a mesma exige. Toda a tribo colhe os benefícios proporcionados pelo processo catártico, pois contribuiu para o clímax do mesmo, tendo entrado no seu preparo “múltiplos esforços parciais realizados em comum”. (4 pág. 43).

A repetição do Javari não obedece a calendário fixo ou previsões cronológicas: parece antes corresponder a uma necessidade de reforço da solução encontrada, para a sobrevivência e sustentação da estrutura tribal, isto é, à necessidade de manter um bom nível de integração, tanto individual quanto social, dentro do contexto cultural.

Segundo Moreno, os estados inconscientes de dois ou vários indivíduos estão entrelaçados num sistema de estados co-inconscientes, os quais “jogam um grande papel na vida de pessoas intimamente associadas ou grupos estreitamente vinculados”. “Tais estados são propriedade comum do grupo, experimentados e produzidos conjuntamente, e, portanto, só podem ser reproduzidos e representados conjuntamente, num esforço combinado”. “São a matriz da qual deriva a inspiração e conhecimento de seus participantes.” (5. pág. VIII e IX).

A partir do exposto, se pode concluir que a carência, vivida inconscientemente por vários indivíduos, de papéis de afirmação viril e guerreira, em níveis tanto individual quanto tribal, cria um estado co-inconsciente de tensão, frustração e desintegração que busca superar-se na inspiração e motivação, sentidas pelo grupo, sem outras razões lógicas, de organizar um novo Javari.

Vivendo conjuntamente os papéis reprimidos e exprimindo as emoções correspondentes, os conflitos comuns do grupo são trabalhados através de esforços combinados, de maneira mais profunda e mais completa do que as circunstâncias normais na vida o permitiriam.

O encontro de soluções de grupo é grandemente favorecido pela vida comunitária a que estão acostumados, dentro de uma economia baseada na cooperação de todos os membros para a subsistência tribal: cada indivíduo é habituado desde a infância à interdependência no trabalho, num plano de igualdade e cooperação, com as mesmos direitos no acesso às fontes de subsistência oferecidas pela natureza ou criadas pelo trabalho coletivo. As atividades comuns e a reciprocidade de auxilio criam vínculos humanos dignificadores, que buscam o encontro no relacionamento interpessoal e a auto-valorização e satisfação emocional no nível individual.

Enquanto livre de influências alienígenas e contatos desagregadores com a influência civilizadora, as instituições culturais indígenas oferecem condições de realização pessoal e adaptação sem conflito, proporcionando ao indivíduo papéis nítidos e situações sociais definidas, com a possibilidade, sempre presente, de colocar espontaneidade e criatividade pessoal a serviço dos papéis assumidos.

Como afirma Bermudez, “o sentimento de realização pessoal surge da concretização da capacidade criadora através dos papéis sociais, isto é, quando ao estereótipo social são dadas tais características que levam o indivíduo a identificar-se com ele e a sentí-lo como uma criação pessoal.” (4, pág. 51)

Com efeito, mantendo seu conteúdo existencial muito próximo às próprias fontes e origens da vida, a estrutura tribal valoriza o indivíduo como um fim em si, dependendo seu prestigio e sua posição social do virtuosismo e criatividade que demonstre no desempenho de seus papéis. Nas tarefas produtivas da coletividade, como no fabrico de seus próprios objetos de uso, desde as armas até os adornos pessoais e utensílios domésticos, o índio xinguano preocupa-se com a perfeição de suas realizações. Toda a sua obra possui um cunho pessoal, é uma afirmação de si mesmo, de sua identidade única, de seu talento inventivo. Chama atenção a busca de beleza e de manifestação estética em todos os setores do dia-a-dia, sobretudo na confecção artesanal, na elaboração das pinturas corporais e na pesquisa incessante de novos sons com os instrumentos musicais ao seu alcance.

Quando aparecem dificuldades em satisfazer as necessidades individuais dentro dos padrões culturais, surgem os conflitos. Tais dificuldades podem advir da emergência simultânea de muitas novas necessidades, provavelmente por influências externas, às quais a cultura ainda não teve tempo ou condições de se adaptar, (este é o caso das tribos "civilizadas"), ou por fatores internos institucionais que restringem a realização pessoal de alguns elementos. A cultura sobrevive na medida em que se mantém criativa na busca de soluções, segundo referências ideológicas coerentes, impelindo seus membros a desempenhar os papeis psicossociais existentes e criar outros, pela emergência de novos projetos que oportunizem a atualização de potencialidades.

Os cerimoniais e ritos xinguanos refletem soluções espontâneas, encontradas intuitivamente na busca do equilíbrio individual e social. Falam diretamente de conflitos humanos imediatos com grande vivência de conteúdo.

Outro exemplo interessante refere-se às dificuldades de relacionamento entre os sexos, que colocam a mulher em posição desvantajosa. A divisão de trabalho, baseada em atribuições perfeitamente delimitadas de acordo com o sexo cria a inferiorização da mulher na comunidade. As tarefas masculinas estão tradicionalmente eivadas de prestigio, como uma herança histórica de suas funções guerreiras em defesa da tribo e de provedor através da caça e da pesca.

As mulheres trabalham muito e são tão importantes quanto os homens na organização econômica tribal, entretanto estes é que têm prestigio e poder decisório sobre os assuntos da comunidade e sobre as resoluções familiares.

Como os papéis psicossociais de cada sexo são assumidos e vividos desde muito cedo, segundo modelos coerentes e constantes, e as aspirações pessoais correspondem às expectativas do grupo, as mulheres estão acomodadas no desempenho dos papéis que lhes competem e nem lhes passa pela cabeça que possam não estar satisfeitas com os mesmos, ou que haja possibilidades de modificar a situação. Entretanto, a ausência de reciprocidade e de igualdade no relacionamento cria suscetibilidades e tensões emocionais entre os sexos, que precisam ser descarregadas e resolvidas, para manter a coesão grupal. Aparece, então, uma cerimônia ou festividade que oportuniza o esvaziamento dos conflitos e, consequentemente, a sustentação das instituições e da consistência cultural.

Mais ou menos de ano em ano, as tribos do Alto-Xingu realizam a festa chamada “Iamaricumã”, onde é revivido o conflito entre os sexos em nível dramático.

Nesse dia, as mulheres assumem os papeis masculinos, enfeitam-se com adornos tais como cocares, braçadeiras, colares, pintam o corpo da maneira como fazem os homens e tomam conta da aldeia. é a festa das mulheres. Elas tocam flauta, dançam, fazem pouco dos homens, trocam e aceitam desafios para lutas corporais. Esse cerimonial parece ser reminiscência de antigas experiências de matriarcado, conforme narram mitos da região.

A troca de papéis oportuniza a vivência de sentimentos reprimidos de auto-afirmação e auto-valorizacão dentro de um clima de liberdade e possibilita às mulheres viverem papeis não permitidos pela cultura, trazendo à ação aspectos profundos de sua personalidade, de maneira explícita, em campo relaxado, isto é, com a aprovação do grupo, que em outras circunstâncias não o permitiria.

É importante salientar, entretanto, que nessa troca de papéis não há uma reciprocidade, pois os homens desempenham os papéis femininos apenas em sua parte passiva, aceitando a situação, mas não os assumindo quanto a tarefas e expectativas de ação. é evidente que os homens, no caso, possuem menos elementos reprimidos; por isso a festa é das mulheres e o maior proveito é colhido por elas, que possuem maior carga de aspectos pessoais a serem vividos e integrados. Após o período de aquecimento, representado pelos preparativos, pinturas e adornos, a dramatização do conflito latente pela troca de papéis envolve a liberação da espontaneidade, através do envolvimento total das participantes na criação dos papéis propostos.

Segundo Moreno. “é muito importante a troca de papéis para uma terapia recíproca eficaz. A troca de papéis é a crise de encontro entre o “Eu e o Tu”, em encontrar-se. é o ponto culminante que completa o sentido de unidade, de identidade e de “pertencer” a um grupo”. Ainda: “No sistema de experiências inconscientes comuns, extensivo às relações interpessoais do grupo, encontramos uma razão para a significação e eficácia de troca de papéis e de outras técnicas psicodramáticas. São os elementos naturais, adequados para explorar esses estados inconscientes comuns.” (1. pág. 76).

“Trata-se de representar os papéis alheios, com os quais se esteve vivendo e interatuando, manifestando o tipo de vínculo percebido, com deformação ou não". (4. pág. 29).

O resultado da dramatização deveria ser a integração, através da vivência de sentimentos de poder e de auto-valorização, de elementos de personalidade dissociados pela ação de pressões culturais. Neste sentido, Moreno afirma que “a catarsis é engendrada por uma visão de um novo universo e pela possibilidade de um novo crescimento”. (5, pág. 39), no que é secundado por Bermudez, que diz: “um dos índices de aferição dos efeitos do tratamento consiste na aparição de novas inquietudes relacionadas com as potencialidades pessoais não desenvolvidas.” (4, pág. 52).

O que se nota, entretanto, no caso, é que parece não ter havido uma catarse de integração, pois não houve mudança ou um crescimento do grupo envolvido na representação. Se, por um lado, a ação dramática possibilitou uma intensificação das relações interpessoais, que poderá até mesmo atingir uma função psicoprofilática na dinâmica futura do grupo em questão, a totalidade da dramatização ocasionou apenas ab-reação e desafogo de emoções, a nível superficial.

“A mobilização do material não basta para curar: é necessário que o mesmo seja canalizado com vistas à Catarse de Integração. (4, pág. 49-50). O resultado depende da elaboração e “insight”, por parte dos protagonistas, das experiências vividas. Talvez por não ter havido reciprocidade na troca de papéis, não foi atingido um nível vivencial terapêutico, que possibilitasse transformação. Não houve a elaboração dos conflitos e a solução permaneceu num plano de descarga catártica das tensões acumuladas.

Comparando os dois rituais descritos, o primeiro se evidencia como mais completo, pois oportunizou integração e mudança, enquanto que este último, ainda que tendo, intuitiva e acertadamente, buscado um caminho dramático de solução pela ação, não conseguiu atingir um resultado totalmente satisfatório. é interessante ressaltar-se que, no caso de conflito intertribal, a mudança é necessária para a sobrevivência da cultura, enquanto que, no conflito intratribal em relação aos papéis femininos e masculinos, a sobrevivência e coerência da cultura depende, ao contrario, de uma permanência da estrutura social. Daí, talvez, o interesse grupal inconsciente de apenas esvaziar o conflito, sem oportunizar uma Catarse de Integração, que traria consigo uma modificação de conseqüências imprevisíveis e, por isso mesmo, muito ansiogênica. Em ambos os casos, foi encontrado o mundo da representação dramática como resposta às necessidades sociais e individuais de equilíbrio, coesão e integração.

Ainda que estacionados no tempo e no espaço, repetindo hoje as técnicas tribais de mil anos atrás, os índios brasileiros muito podem ensinar à nossa sofrida e tumultuada sociedade, quanto ao relacionamento interpessoal e comportamento do homem dentro de sua sociedade.

O índio em sua tribo é um ser humano completo, estável e tranqüilo. Enquanto culturalmente adaptado e a salvo da desagregação ideológica, encontrou na ação, na espontaneidade e na vivência comunitária condições de enfrentar a vida e suas dificuldades. Condições estas que o conduziram a técnicas de representação dramática dos conflitos da comunidade.

    Referências Bibliográficas:
  1. MORENO, J. L.. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1974.
  2. VILLAS BOAS, Orlando e Cláudio. Xingu, os índios e seus mitos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.
  3. RIBEIRO, Darcy. 0s índios e a Civilização. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1970.
  4. BERMUDEZ, J. C. Rojas. Introdução ao Psicodrama. São Paulo: Ed. Mestre, 1970.
  5. MORENO. J. L.. Psicodrama. Buenos Aires: Ediciones Hormé, 1914.
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PSICODRAMA NO COMBATE AO STRESS
Marta Echenique

O stress é uma reação de adaptação ao meio. O organismo busca o equilíbrio por um impulso natural e, quando não consegue, faz um esforço extra para recuperá-lo. Em certa medida, o stress pode ser até benéfico, pois estimula a atenção ao meio ambiente e a prontidão nas respostas. No entanto, quando esse esforço supera o limite que o indivíduo pode suportar e quando os estímulos estressantes são contínuos e de longa duração, ele pode provocar as mais diversas doenças. Dessa forma, o corpo emite sinais de que mudanças devem ser feitas.

O stress pode ocorrer como uma resposta adaptativa a estímulos externos desagradáveis, intensos e súbitos – situações traumáticas, acidentes, perda de um ente querido, roubos, perda do emprego, perda da liberdade – ou até mesmo devido a acontecimentos positivos que impliquem em uma mudança brusca na vida de uma pessoa – tais como ficar rico de repente, casar-se, mudar de país, férias prolongadas com a família, etc. Isto significa que fatores ruins e bons podem ocasionar o stress, uma vez que tiram o indivíduo de seu ritmo natural, forçando-o a adaptar-se a novas situações.

Pessoas com estruturas psíquicas diferentes terão respostas diferentes. Ainda que submetidas às mesmas circunstâncias, podem ter reações bastante distintas, podendo uma desencadear o stress e a outra, não. Neste caso, as variáveis são fatores internos que levam a reações mais ou menos intensas e com diferentes graus de adequação.

Às vezes, isoladamente os estímulos não são excessivamente fortes ou intensos, mas várias pequenas pressões se acumulam e sobrecarregam o organismo: problemas financeiros, profissionais, familiares, dificuldades com chefes e colegas, situações de vida, doenças, acidentes, correria, insegurança, trânsito difícil, etc. A aceleração das mudanças do mundo atual exige adaptações e malabarismos em todos os setores da vida e é bastante difícil manter-se equilibrado num mundo cada vez mais desequilibrado.

Nas organizações de trabalho, o grande desafio é a conciliação entre as necessidades operativas e funcionais do mundo dos negócios e a busca de realização pessoal a partir de desejos e sonhos individuais. Conciliação entre a saúde de empresa e a saúde dos indivíduos. Por exemplo, a situação de stress se instala em funcionários requisitados além de seus limites para que as suas empresas sejam cada vez mais competitivas no mercado. Este fator é um constante gerador de esforço muito grande, que leva ao stress.

Nem sempre as pessoas têm consciência da medida em que estão se violentando para se inserir no mercado de trabalho ou da existência de conflitos de toda a ordem que dão origem a stress, tanto a nível individual como grupal, e em que medida fatores coletivos e supra-individuais estão envolvidos.

As contradições não esclarecidas desgastam e desviam os propósitos mais autênticos, ao passo que a percepção dos conflitos, um claro discernimento dos valores envolvidos e a organização de prioridades, a partir da tomada de consciência que distingue o que é importante do que é irrelevante, possibilita escolhas coerentes e uma vida saudável.

O resgate do humano passa por uma ampliação da consciência e pela mobilização dos indivíduos para vivenciarem a realidade a partir do reconhecimento dos conflitos e das diferenças, bem como pela percepção e valorização dos espaços possíveis de ação transformadora.

O Psicodrama oferece uma efetiva possibilidade de lidar com o stress. Seu criador, Jacob Levi Moreno relacionava-se com crianças e adultos, estimulando-os a descobrirem novas formas de estar no mundo.

Novas formas de estar no mundo – isso é o que todos estamos buscando. Formas de lidar com as diferenças e com os conflitos. Formas de valorizar os recursos humanos e os da natureza. Formas de sermos coerentes com nossos ideais e respeitosos em relação aos dos outros. Formas de sermos responsáveis e produtivos e, ao mesmo tempo, fiéis à nossa verdade interior e aos nossos sonhos. Formas de permanecermos humanos num mundo que nos pressiona em direção à maquinização.

Considerando o ser humano um ser em relação e trabalhando basicamente com os vínculos e as relações interpessoais, o Psicodrama oferece uma boa resposta a essas necessidades.

A experiência psicodramática focaliza o indivíduo como centro de uma rede onde os diferentes papéis que exerce na vida podem e devem ser expressos em harmonia com o contexto em que está inserido, o que permite encontrar o equilíbrio entre as solicitações dos grupos e das organizações e as necessidades individuais de auto-desenvolvimento e realização.

A integração de conteúdos psíquicos e o desenvolvimento de atitudes coerentes e pró-ativas em relação às exigências e expectativas externas promovem sintonia entre o mundo interno e os projetos profissionais e permitem a expansão da realidade subjetiva e a fácil concretização de metas.

Em um ambiente de aceitação e segurança, ocorrem situações que permitem um crescimento gradativo do fluxo da espontaneidade e potencializam a autoconsciência. O sujeito passa a identificar seus desejos, bem como suas frustrações, a experimentar um maior sentido de quem realmente é e do que realmente quer, ao mesmo tempo em que desenvolve uma estrutura de recursos capaz de responder adequadamente às situações novas e aos compromissos assumidos, sem violação de seus valores essenciais.

O discurso compartilhado e a troca de experiências promovem formas mais adequadas de relacionamento, reforçam a identidade dos participantes e levam à co-criação de soluções operativas para responder às circunstâncias externas, expandindo os recursos disponíveis de cada indivíduo e dos grupos.

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REFLEXÃO SOBRE A GÊNESE DA VIOLÊNCIA
Marta Echenique

INTRODUÇÃO

A violência está cada vez mais presente em nosso dia a dia.

Muito além dos delitos que se convencionou chamar de violência urbana - assassinatos, sequestros, roubos e outros tipos de crime contra a pessoa ou contra o patrimônio - com os quais nos assustamos e muito nos preocupamos, a violência abrange comportamentos tais como desrespeito sistemático às normas de conduta social estabelecidas pelos códigos legais ou pelos costumes, malversação do dinheiro público, corrupção, incompetência administrativa, imperícia profissional, infrações de trânsito, ocupação indevida de espaços públicos e privados, negligência causadora de acidentes, desrespeito ao consumidor e ao cidadão. Estes comportamentos estão tão banalizados e a eles estamos tão acostumados que não nos damos conta do quanto enfraquecem o tecido social, prejudicam as relações, corroem a qualidade de vida das pessoas.

É violência todo o tipo de descriminação, preconceito e exclusão social. É violência tudo que atropela os direitos humanos, tudo que afasta o homem da realização plena de sua humanidade, tudo que o priva da possibilidade de viver como um ser social e solidário.

Grande ênfase tem sido dada necessidade de aprimorar políticas de segurança pública. Sem diminuir a importância destas reivindicações e levando em conta que a abordagem da violência envolve, necessariamente, aspectos sociais e psicológicos, este trabalho focaliza alguns aspectos da construção da identidade, através dos quais a violência se instala e se desenvolve, com vistas a determinar pontos de possível intervenção psico-social.

REFLEXÃO

A formação de sociedade brasileira foi, historicamente, violenta. A exclusão social e política, a dominação e as desigualdades econômicas, sociais e culturais, que têm origem já no início da colonização, são formas de violência. Toda prática e toda idéia que reduza um sujeito à condição de objeto, que viole alguém interna ou externamente é violência e, neste sentido, somos todos vítimas e agentes da violência, em grandes e pequenas coisas do cotidiano.

No entanto, vivemos sob mito da não-violência, isto é, nos consideramos um povo cordial, generoso, alegre, solidário, que desconhece o racismo e respeita as diferenças étnicas, religiosas e políticas.

Não nos percebemos como um povo violento, porque a violência estrutural e institucional sempre esteve presente, tão natural que quase não nos damos conta. A violência que estranhamos, que nos tira a segurança e a tranquilidade, é aquela que se dirige ao mundo privado e ameaça o nosso cotidiano, rompendo a rede das relações de convivência mantenedoras da estrutura social.

Se há causas sociais que geram violência, também é verdade que o comportamento violento não pode ser atribuído a uma única causa – genética, biológica, social ou psicológica.

Sem querer minimizar a gravidade de nossas questões sociais, observa-se que a pobreza não produz necessariamente violência. Tanto é assim, que regiões extremamente pobres do Nordeste apresentam índices de violência muito menores do que aqueles verificados em áreas como São Paulo, Rio de Janeiro e outras grandes cidades.

A excessiva concentração de pessoas nas grandes metrópoles provoca aumento das tensões, ao mesmo tempo que o enfraquecimento do controle social, quer seja pelo anonimato e impessoalidade das relações, quer seja pela omissão do Poder Público, facilita a ocorrência de condutas anti-sociais que comprometem as condições de vida e de convívio. A violência se instala mais facilmente nas áreas urbanas onde a infra-estrutura de serviços é precária ou insuficiente e há dificuldade em encontrar trabalho. Muitas vezes é praticada por jovens da classe média e, mesmo ente os mais pobres, alguns estudos demonstram que cerca de 90% dos casos de delinquência são provocados por motivações de consumo, não pela necessidade ou pela miséria.

Os fatores de risco podem se reforçar e se influenciar mutuamente e à estrutura sociopolítica somam-se as trocas interpessoais, como elementos determinantes na construção das personalidades violentas.

Em reportagem da revista Veja, de 15 de outubro de 1997, sob o título “Pais ausentes”, a jornalista Flávia Varella relata que elefantes jovens que cresceram longe da família começaram a matar rinocerontes em parques-reservas da áfrica do Sul.

Para evitar a superpopulação, cerca de 1500 filhotes foram retirados do parque Kruger e mandados a outras reservas onde não havia elefantes. Não foram removidas famílias inteiras porque na época não havia equipamento capaz de transportar os adultos.

Os elefantes costumam viver em bandos muito unidos, nos quais os mais velhos ocupam o papel de educadores, em um sistema de hierarquia muito bem definido que coordena e determina constantes interações. Segundo o artigo, sem a orientação e o controle de adultos experientes, os jovens elefantes tornaram-se extremamente agressivos e desenvolveram comportamentos anti-sociais totalmente diferentes das condutas habituais da espécie. Atacavam e matavam, em grupo, seguindo um padrão: derrubavam os rinocerontes, ajoelhando-se sobre seu corpo e nele cravavam as presas, num verdadeiro banho de sangue.

A falta de orientação de elefantes mais velhos provocou danos muito severos no desenvolvimento dos jovens, criando “delinquentes juvenis”, como constatou David Barrit, do Fundo Internacional para o Bem-Estar dos Animais (Ifaw).

O fato mais surpreendente dessa reportagem, no entanto, diz respeito à alteração hormonal verificada nestes animais. Em Pilanesberg, um dos parques para os quais foram transferidos, o processo de maturação se alterou de tal modo que vários elefantes machos tiveram a produção do hormônio testosterona iniciada dez anos mais cedo do que o normal.

Em geral, os elefantes ficam mais agressivos durante os períodos em que há explosão de testosterona, porém os machos mais velhos conseguem colocar os jovens na linha, contendo seus impulsos agressivos. Neste caso, além da antecipação, essa intensificação hormonal, que costuma durar apenas alguns dias, chegou a durar até três meses.

Na tentativa de reparar esta situação, a reportagem conta que foram enviadas fêmeas adultas aos locais de atuação das “gangues”:

“Para tentar compensar o erro inicial, as autoridades estão enviando fêmeas adultas aos locais onde as gangues atuam, especialmente os parques Pilanesberg e Hluhluwe-Umfolozi. Imaginam que as elefantas possam pôr ordem no pedaço, já que as fêmeas têm grande poder disciplinador e costumam desempenhar função organizativa no interior das manadas. Os rinocerontes aguardam ansiosamente a chegada dessas titias.” (VARELLA, 1997, p.91).

Fica evidente, neste relato, a estreita relação entre a herança biológica e a necessidade da presença de um “outro” maduro, para o desenvolvimento pleno do indivíduo. Estes animais estavam privados da relação fundamental de interação com outros seres adultos, capazes de ativar e conduzir seu desenvolvimento dentro das normas de convivência grupal.

Assim também, nos humanos, pesquisas transculturais realizadas por James W. Prescott com 400 sociedades pré-industriais (?) afirmam que experiências sensoriais e afetivas adequadas, durante os períodos iniciais do desenvolvimento, criam indivíduos orientados para a tolerância e para relacionamentos harmoniosos, enquanto que a privação de cuidados e de contato corporal intenso causa distúrbios de conduta e transtornos emocionais, que incluem os comportamentos autista e depressivo, hiper-atividade, perversões sexuais, abuso de drogas, violência e agressão.

As estruturas e os valores sociais modelam as opções individuais. As crenças e atitudes de um grupo social ou de uma cultura, bem como os sistemas não-verbais de significado, os mitos, ritos e metáforas – que dão ordem à experiência e sentido à vida – são constituintes da subjetividade de seus membros. Na oferta de papéis e contra-papéis da Matriz de Identidade, a criança é conduzida a funcionar de determinada maneira, em consonância com as expectativas, os valores, os ideais e os laços sociais de uma comunidade, de um grupo, de uma nação.

A regulação e controle das condutas proporcionam o sentimento de pertencer a uma comunidade, confirmando não só a identidade pessoal, como uma identidade cultural.

Nos tempos de mudanças que estamos vivendo, o rápido avanço científico e tecnológico e o impacto da industrialização, da globalização e dos grandes aglomerados humanos geraram e ainda geram, profundas alterações e até mesmo destruição de antigos referenciais de identidade e de ação.

Novas formas de organização estão se estruturando mais lentamente do que o ritmo das mudanças, ainda sem condições de responder totalmente por suas funções de continência e mediação nas relações sociais e institucionais.

Organizações sócio-emocionais que antes davam certo estão sendo insuficientes para responder às necessidades deste momento. Velhos paradigmas já não estão valendo; hierarquias e estruturas familiares são questionadas, preceitos são negados, modelos são descartados. A rapidez atropela e os meios de comunicação mostram tantas possibilidades, que geram insegurança quanto às escolhas.

O equilíbrio entre permanência e transformação nas estruturas sociais está ligado às relações transgeracionais, na produção e transmissão de valores. A geração adulta transmite aos jovens seus princípios norteadores, os jovens os contestam, buscam novas possibilidades, experimentam alternativas e a revisão daí decorrente promove o avanço social.

Quando esta revisão precisa ser acelerada e os adultos não têm respostas suficientes para as questões levantadas pelo momento histórico e mostram incompetência em criar condições satisfatórias de existência, não são reconhecidos como modelos e os jovens não só questionam, como recusam a influência familiar e a autoridade parental, buscando alternativas que possam proporcionar melhor qualidade de vida. Esta recusa se estende à transmissão de valores e às normas de convivência tradicionais, mesmo àquelas que podem e devem continuar valendo para as novas circunstâncias. Num movimento de auto-afirmação individualista, substituem vínculos familiares por grupos de apoio mútuo, com estrutura menos consistente do que os laços originais, onde buscam novos códigos e rituais que reforçarão a sua identidade e lhes fornecerão normas de conduta.

Como forma de inserção, pertencimento, respeito e confirmação, assumem comportamentos desafiadores valorizados pelo grupo - o sexo precoce, a promiscuidade, as drogas, a velocidade, as transgressões, quando não a agressão, a violência e o crime.

Estatisticamente, observa-se, no mundo inteiro, que os homens são os que recorrem mais frequentemente à violência física. Adolescentes e adultos jovens do sexo masculino são os responsáveis pela maioria dos assassinatos, lesões corporais graves ou violência sexual. São também os maiores usuários de drogas de todo o tipo.

Quando há convulsão social ou mudanças desestabilizadoras, os homens sofrem o maior impacto, porque a construção de sua identidade de gênero depende muito de papéis determinados pela cultura. A sociedade pós-industrial, altamente complexa, não facilita a inserção do jovem na comunidade adulta. Os rituais definidores da masculinidade estão ausentes ou destorcidos e tarefas tradicionais que eram prerrogativas do sexo masculino deixam de sê-lo.

A identidade da mulher é mais estável, depende menos da cultura e da estrutura social. Ela não precisa tornar-se, mas apenas ser. Mesmo em tempos de crise e profundas transformações, a própria biologia lhe fornece um sentido para a existência e a maternidade a define e confirma. Não é o caso, aqui, de discutir as implicações e prejuízos aí envolvidos.

Ao serem privados dos sistemas simbólicos de referências e pautas de comportamentos que confirmem sua dignidade e seu valor para a comunidade, os homens ficam expostos a sentimentos de vergonha e humilhação pessoais, que tendem a ser encobertos pela construção de um "falso self" adulto, agressivo, “bem sucedido” (em qualquer parâmetro que isso seja possível).

O jovem desempregado é mais vulnerável ao ingresso na criminalidade, uma vez que o desemprego ou o subemprego mexem com a sua auto-estima e o fazem pensar em outras formas de conseguir espaço e reconhecimento na sociedade. Com dificuldade para entrar no mercado de trabalho, fortemente estimulado para o consumo, sem modelos consistentes que se contraponham ao que lhe é oferecido (apoio, prestígio, sentimento de pertencer a um grupo, o poder que uma arma representa), torna-se uma presa fácil para a transgressão e até mesmo para o crime organizado.

Impulsos primitivos determinados por fatores biológicos e hormonais (além, naturalmente, dos aspectos psicológicos) provocam nos homens uma intensa busca de auto-afirmação e exercício do poder pessoal; modulados e ritualizados pela cultura, são equilibrados pela empatia com os sentimentos das outras pessoas e pelo sentido comunitário do bem coletivo. Na raiz da incapacidade de solucionar amistosamente os conflitos e controlar impulsos agressivos, encontra-se a ausência deste equilíbrio. Modelos de individualismo competitivo e sucesso a qualquer preço, promovem um generalizado endurecimento e baixa tolerância à frustração – ao menor sinal de contrariedade ficam furiosos e não conseguem medir as consequências de seus atos.

A sociedade brasileira não é uma cultura de valores éticos fortes. Somos o resultado da mistura de muitos povos que, ao deixarem para trás suas terras de origem, deixaram também pautas de conduta e referências culturais, abertos a novas influências.

O esforço de adaptação a novas realidades, relativiza as convicções. Como resultado, a flexibilidade tornou-se um forte traço do povo brasileiro. Não há padrões rigorosos de certo e errado que existem em outras sociedades. Os estímulos sociais são para “subir na vida”, buscar a realização imediata dos desejos, cultivar a eterna juventude, desfrutar a vida sem pensar muito.

Quando os referenciais são tão frágeis e não há uma clara noção de prioridades e do sentido básico da vida, como os pais ajudarão os filhos, na transmissão de valores e aprendizagem das regras de convivência, se eles mesmos não têm clareza a respeito?

O êxodo rural acrescenta mais um elemento neste contexto. Nas comunidades periféricas às grandes cidades, concentram-se adultos impotentes e perplexos, desenraizados de seus valores culturais, que migraram do interior em busca de uma vida melhor e se depararam com uma realidade muito diferente daquela que sonharam. Nessa realidade, suas referências não servem mais, suas competências - apropriadas, úteis e dignificantes no contexto anterior - se esvaziam e sua identidade entra em colapso.

Pessoas desesperançadas, vencidas e sem ideais tendem a ser negligentes; vítimas de violência tendem a ser violentas; abusado torna-se abusador. Maus tratos, abusos e negligência, rupturas e conflitos constantes na família são um ótimo caldo de cultura para a criminalidade.

CONCLUSÕES

Podemos concluir que a ausência de laços familiares fortes, cultivados por contato corporal e cuidados amorosos, aumenta a probabilidade de uma criança desenvolver comportamentos agressivos.

Elemento importante e decisivo no combate à violência é, portanto, uma Matriz de Identidade que possa oferecer relacionamentos iniciais de boa qualidade e que, através de seus preceitos e rituais, possa passar adiante os valores de sua comunidade, orientar e limitar as opções e ajudar os jovens a lidar com a frustração pela tolerância às exigências da realidade, visão de médio e longo prazo e senso de pertencer a um grupo.

A presença de adultos maduros e com capacidade de contenção psíquica, que possam servir de modelos e suporte emocional e assumir as tarefas de tomar conta dos mais novos, preservando o equilíbrio e a estabilidade cultural, através de comportamentos adequados às demandas do momento e às contingências sócio-culturais, é fundamental para a transmissão dos valores humanos de amorosidade e respeito ao outro.

Ainda que a falta de condições mínimas de afeto e de convivência dentro da família possa ocorrer em qualquer modelo familiar e em todas as classes sócio-econômicas, a privação sócio-cultural, em seus aspectos tanto econômicos como psicológicos, dificulta e empobrece sobremaneira as possibilidades das famílias fornecerem uma Matriz de Identidade adequada.

Uma sociedade saudável é aquela que oferece condições sócio-econômicas e culturais para que as famílias possam desempenhar a contento suas tarefas e deveres em relação às crianças.

A busca de soluções para o problema da violência deve contemplar, portanto, ao mesmo tempo, o combate à violência estrutural da sociedade, eliminando a exclusão social e educacional, e a proteção e promoção das funções matrizadoras das famílias na construção das subjetividades. O fim da violência nas ruas começa dentro de casa.

Referências bibliográficas:

  • FASSA, B. e ECHENIQUE, M. Poder e Amor – A Micropolítica das Relações. São Paulo: Editora Aleph, 1992.
  • MONTAGU, Ashley. Tocar: O significado humano da pele. São Paulo: Summus Editorial, 1998.
  • MORENO, J.L.. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1974.
  • VARELLA, Flávia. Pais Ausentes. Veja, p.91, 15 de outubro de 1997.
  • Citado em MONTAGU, Ashley. Tocar: O significado humano da pele. São Paulo, Summus Editorial, 1998. p. 309.

» Este artigo foi publicado na Revista Brasileira de Psicodrama.

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